sábado, 31 de outubro de 2015

Mês das Bruxas: 25 Clássicos do Terror - A Noite dos Mortos-Vivos


Finalmente chegamos ao último artigo da nossa maratona de horror. E que melhor maneira de encerrá-la do que com aquele que é provavelmente o filme de terror mais importante do século XX?

Senhoras e senhores, falemos da obra máxima do mestre George Romero.

Aliás, este artigo contém SPOILERS IMENSOS!

Estejam avisados.


SPOILERS: Este filme contém mortos-vivos

Barbra (Judith O’Dea) e seu irmão Johnny (Russel Streiner) vão até o cemitério onde está o túmulo de seu pai, para a visita anual ao velho. Não que a esta altura ele perceba. Durante o trajeto, Johnny percebe o desconforto da irmã no local, e como bom primogênito decide aterrorizá-la, repetindo sem parar: “Eles vão te pegar, Barbra!”

Mal sabia ele que sua profecia se tornaria real, pois logo a garota é atacada por um estranho. Johnny tenta salvar a irmã, mas na luta que segue, ele perde o equilíbrio, bate a cabeça em uma lápide e morre. 

Apavorada, Barbra foge do estranho até chegar em uma casa aparentemente vazia no meio do campo. Ela busca abrigo, mas acaba se deparando com um cadáver e mais criaturas iguais ao homem que a persegue. Para sua sorte, um camarada chamado Ben (Duane Jones) logo chega ao local e tenta fortificá-lo, para manter a si e a garota seguros, enquanto o socorro não chega.

Com o passar da noite, a casa é cercada por mais e mais monstros, atraídos pelo barulho de tábuas sendo pregadas nas portas e janelas. Além disso, Ben e Barbra descobrem que outras pessoas estavam escondidas no porão: Tom (Keith Wayne) e sua namorada Judy (Judith Riley), e a família Cooper, Harry (Karl Hardman), Helen (Marylin Eastman) e a filha Karen (Kyra Schon), que está doente devido à mordida de uma das criaturas.

Tão logo os Cooper entram na história, as tensões começam a aumentar. Harry acha que todos devem se abrigar no porão, enquanto Ben acha que se encurralar debaixo da terra, sem uma rota de fuga para o caso das criaturas conseguirem derrubar a porta, é uma péssima idéia.

Enquanto isso, a televisão e o rádio noticiam que uma onda de assassinatos brutais está varrendo a nação. De alguma forma inexplicável, os corpos dos recentemente falecidos foram reanimados, e agora estavam atacando e devorando pessoas.

Ben, Barbra e os demais estavam encurralados no meio do nada, cercados por um horror inconcebível e que aumentava a cada minuto, e teriam de unir forças para tentar chegar ao fim da noite, vivos.

Mas onde estaria o maior perigo? Do lado de fora da casa... Ou em seu interior?

Um careca cretino, um adolescente imbecil e uma dona de casa burra.
Você tem mais chance se se arriscar com os mortos, Ben.

Em 1968, não havia nada que se comparasse a A Noite dos Mortos-Vivos. Claro, filmes de terror não eram uma novidade, mas eram bem mais mundanos, com um vilão bem definido e a certeza de que o bem triunfaria sobre o mal no fim. Terror era sinônimo de diversão inocente, de brincar com o proibido, e era igualmente atraente para adultos e crianças.

Assim, quando esta película foi lançada, recebeu o mesmo tratamento de matinê que todos os colegas em sua época. Sua primeira exibição ocorreu em 1 de outubro de 1968, em um sábado a tarde. A platéia estava cheia de crianças e pré-adolescentes, que esperavam se divertir e levar um ou dois sustos, que seriam discutidos incessantemente durante a aula na segunda-feira.

Mas tudo mudou no momento em que os zumbis começaram a devorar os mocinhos que até minutos atrás, lutavam bravamente pela própria sobrevivência.

O lendário crítico Roger Ebert, que esteve presente em uma das primeiras exibições da produção, descreveu: “As crianças na platéia estavam chocadas, e o cinema estava quase que totalmente silencioso. O filme deixara de ser uma diversão assustadora e tornou-se aterrorizante a partir de sua metade. Havia uma menina, de talvez nove anos, sentada na mesma fileira que eu. E ela estava imóvel, chorando.”

O longa foi produzido de forma independente, fora das restrições normalmente impostas por Hollywood. Com isso, Romero e sua equipe puderam ir muito mais longe no grau de violência do que normalmente era permitido na época. Ele e os roteiristas debateram sobre qual seria a coisa mais terrível que os zumbis poderiam fazer uma vez que pusessem suas mãos nos heróis. Canibalismo foi a resposta.

Logo, o trabalho de Romero foi alvo de inúmeras controvérsias. Muitos críticos de cinema trataram a obra com desprezo, e a condenaram por seu teor grotesco. A revista Variety o criticou por ser uma “vergonhosa orgia de sadismo” e a Reader’s Digest tentou convencer as pessoas a não o assistirem, pois a publicação acreditava que A Noite dos Mortos-Vivos poderia influenciar o canibalismo entre seu público.

...

É, pois é. Já existia esse tipo de loucura naquela época.

"A seguir, no Jornal da 11, Anita Sarkeesian explica porque zumbis
são problemáticos e a ofendem."

Mas muitos críticos também o perceberam com um viés mais positivo, e o entenderam como uma alegoria a Guerra do Vietnã, que estava em seu auge na época.

Mas mais importante que isso, a presença de um protagonista negro foi um divisor de águas na época. Em 1968, as tensões raciais nos Estados Unidos estavam em ponto de ebulição, com um preconceito que parecia não ter fim chocando-se diretamente contra o Movimento pelos Direitos Civis dos Afro Americanos, que ganhava cada vez mais força.

George Romero afirma que não contratou Duane Jones por sua etnia, mas porque ele foi o ator que se saiu melhor no teste para interpretar Ben. De fato, o personagem fora concebido como um caminhoneiro rude, mas engenhoso. Uma caracterização que foi alterada para que fosse um cavalheiro, claramente inteligente e articulado, mas ainda bastante engenhoso, para se adequar melhor a personalidade de Jones.

O triste destino de Ben acabou também sendo um reflexo para a violência que recaia sobre muitos negros na América daqueles tempos. No fim da história, ele é o único sobrevivente na casa, enquanto do lado de fora, um grupo de caipiras armados caminha pelo campo matando os últimos zumbis que encontram. Assim que os homens avistam a sombra de Ben dentro da casa, atiram nele, sem verificar se é uma das criaturas ou não. Os créditos então mostram o corpo do protagonista, jogado sobre uma pilha de cadáveres, prestes a serem queimados.

O filme pode ser interpretado como uma obra niilista. Os monstros nele presentes não são vampiros, lobisomens ou alienígenas, mas uma versão distorcida de nós mesmos. A mensagem que a história carrega é a de que os humanos destroem uns aos outros, não importa a forma. Ben sobreviveu aos mortos-vivos, apenas para ser baleado por ignorantes armados.

Claro, esta mensagem foi usada a exaustão desde então, e tornou-se um daqueles clichês que Hollywood tanto gosta de usar. Mas cinco décadas atrás, esta ideia era nova, e completamente aterrorizante para qualquer um que a presenciasse.

"Muito bem, oceis atire bem na testa dos zumbi quando os vire!
Não vamo deixá nenhum morto roubá emprego de americanos honestos!"

Demorou um bocado para que eu pudesse assistir a este filme. Embora tivesse sido lançado em vídeo no Brasil, absolutamente nenhuma locadora que eu conhecia possuía uma cópia. Naqueles tempos, qualquer fita mais antiga era difícil de ser encontrado, o que fez com que verdadeiros clássicos só pudessem ser vistos no Corujão ou qualquer outra sessão de cinema da madrugada.

E assim foi com A Noite dos Mortos-Vivos, que encontrei por acaso na Rede Cultura enquanto zapeava os canais em uma madrugada de sábado. Estranhei deparar com um filme de terror em um espaço que a emissora normalmente reservava a produções como As Vinhas da Ira ou Como era Verde meu Vale. Mesmo na época, eu já sabia que horror não era um gênero que os amantes de cinema respeitassem.

Não lembro a idade exata que tinha na época, talvez dezessete anos. Eu já havia assistido o remake de 1990 (feito por Tom Savini) a exaustão, e duvidei que o original, filmado em preto e branco, e com um orçamento muito menor, pudesse me impressionar.

Alegro-me em dizer que me enganei brutalmente.

Havia algo de sinistro naquela película. Talvez a ausência de cor destacasse mais as sombras e refletisse uma ausência de esperança no dilema dos heróis, ou talvez a época, nos anos 1960, com meios de comunicação limitados e sem tecnologias modernas, implicasse que uma catástrofe naqueles tempos seria muito mais problemática do que hoje.

Ou ainda poderia ser a simplicidade na aparência dos zumbis. Hoje, magos dos efeitos visuais desumanizam tais criaturas no cinema e na televisão, e as transformam em montes de carne putrefata que caminham e devem ser destruídas. A única emoção que evocam é repulsa.

Os monstros de Romero eram pessoas cuja maquiagem apenas acentuava traços faciais característicos. A fotografia em preto e branco e nossa imaginação faziam o resto, e de repente, homens e mulheres comuns tornavam-se o maior dos horrores.

Como Barbra bem falou na re-imaginação de Tom Savini para a história: “Nós somos eles, e eles somos nós.”

"Tem gosto de gato!"

A Noite dos Mortos-Vivos é um clássico absoluto. Não apenas para seu gênero, mas para o cinema em geral. E merece um lugar de destaque junto a outras obras idolatradas como Cidadão Kane, Casablanca e O Poderoso Chefão.

Como todas estas produções, A Noite dos Mortos-Vivos tem grande importância cultural e social. Mas mais do que isso, em uma época onde horror se resumia a homens em fantasias de borracha engraçadas e diversão leve para a garotada, George Romero ensinou a toda uma geração o significado da palavra “medo”.

E se o cinema é arte por ser capaz de evocar respostas emocionais de sua platéia, devemos aplaudir algo capaz de trazer a tona, e de forma tão crua, um dos sentimentos mais primordiais do ser humano.

Cheers!!!

9 comentários:

Aristóteles de Oliveira Marques disse...

Excelentíssimo texto, minha lista de filmes a ver só aumenta. Seu toque totalmente pessoal na crítica é realmente um diferencial (não que eu seja um ávido leitor de críticas btw)

Matheus White disse...

Muito bom! Li todos os textos e adorei o mês temático!

Foi muito nostálgico os seus relatos, ambientando muito bem a época de seus respectivos lançamentos.

Parabéns amer

imperion disse...

a noite do amer mito

imperion disse...

esse detalhe da maquiagem eu nao tinha reparado

Giovanni Seiji disse...

Excelente texto como sempre Grande Amer.
E esse mês foi do balacobaco!
Por Netuno esse mês foi bom demais!

Meus parabéns!

Shadow Geisel disse...

Muito bom mesmo o texto.Acompanho o blog do Ammer desde 2011, e posso assegurar que a qualidade só aumentou de lá pra cá. uma dúvida: cadê aquela enxurrada de pessoas que comentavam nos seus posts, Ammer? foram comidas por zumbis? até estranhei quando meu dedo não cansou pra rolar a tela...

Amer H. disse...

Algumas comentam no Facebook agora. Mas acho que a maioria migrou pra outros sites durante o tempo que eu fiquei sem escrever.

Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...

Desse filme só vi o remake, É era mais assustador que a sua continuação onde era mais comedida. É o "Ben " do remake acho que era o Tony Todd, o famigerado Candyman. É o final era um pouco diferente do dito no texto.

Parabéns Amblin, embora tenha faltado mais filmes clássicos.

Leon Cotocso disse...

perai, voce nao tinha prometido fazer um game play de apocalipse zero para esse dias das bruxas que foi feito na ultima critica do mesmo anime?!ah e mais uma coisa, muito bom estas suas criticas de cinemame da vontade de ir assitir os filmes que diga se de passagem ja assisti muitos deles,mas vou voltar a ver meus filmes europeus.