Olá, meus queridos! Como estão? Passaram bem o ano novo? Ótimo, fico feliz em vê-los saudáveis e com vida.
E caso alguém tenha morrido desde a última vez que nos falamos... bom, a vida continua.
Para iniciar 2012, decidi fazer algo que jamais tinha imaginado: refutar o artigo de uma colega de profissão. No caso, “Dez razões pelas quais A Guerra dos Tronos é (muito) melhordo que O Senhor dos Anéis”, escrita por Nana Queiroz para o site da revista Veja.
Sei que o artigo é meio velho, mas só chegou a meu conhecimento recentemente. Se isso os desagrada, me processem.
Antes de prosseguir, quero deixar uma coisa bem clara: eu nunca assisti ou lí nada da série Game of Thrones.
Muitos amigos tem insistido para que eu dê uma chance a ela nos últimos meses. Confesso que vi alguns trechos e fiquei intrigado, sem mencionar que os altos valores de produção da HBO sem dúvida chamam atenção. Só não assisti ainda porque ando com muito pouco tempo livre a minha disposição e prefiro utilizá-lo para dedicar-me aos meus video games.
Deus sabe que já os negligencio demais.
Também quero deixar claro que nunca terminei de ler a saga de “O Senhor dos Anéis”. Assisti aos filmes e gostei muito deles, mas passo longe de ser um daqueles fãs obcecados que reclamam até hoje da ausência de Tom Bombadil nas adaptações cinematográficas.
Maldito Tom Bombadil.
Então, vocês devem estar pensando, com que autoridade poderei criticar o trabalho de uma colega de profissão, uma vez que não sou especialista em nenhuma das duas séries?
Simples, pequeno gafanhoto, o artigo de Nana Queiroz não parece se basear em conhecimento, mas em simples gosto pessoal. A autora colocou sua opinião como uma verdade absoluta e muitas de suas afirmações são terrivelmente juvenis e imaturas, em sua tentativa de descreditar a obra de Tolkien em prol da de Martin. Mais parece que ela estava batendo boca em um fórum qualquer do que escrevendo para a Veja, tamanha a falta de base em seus argumentos.
Assim, usarei cada um dos itens que ela criou para sua lista e mostrarei como os argumentos da moça não foram tão bem pensados assim.
Aliás, eu não conheço Nana Queiroz, nunca falei com ela e sequer sei com o que ela se parece. Minha crítica é a seu trabalho e não a sua pessoa. Espero que todos tenham entendido.
Então, prossigamos nesta empreitada. E antes de me xingarem, peço aos fanboys de ambas as séries que leiam meu artigo até o final, pode ser?
Ou, fiquem a vontade para me atacar desde já. Sei que alguns de vocês farão isso de qualquer forma.
1) Os personagens transam, escarram, defecam
e ficam de ressaca
O primeiro item da lista de Nana define que uma vantagem de
Game of Thrones sobre O Senhor dos Anéis é a descrição gráfica das cenas de
batalha, sexo e do funcionamento intestinal dos personagens. De acordo com a
autora, “Martin leva o realismo as últimas consequências”, enquanto “Tolkien
parece viver em um platonismo cego”.
Ok, façamos algo simples. Vejamos em que ano cada obra foi
lançada.
“O Senhor dos Anéis” começou a ser publicado em 1937, já “Game
of Thrones” teve seu primeiro volume lançado em 1996. Houve um espaço de quase
60 anos entre as duas obras.
Sabem o que mudou nesse pouco mais de meio século? A
SOCIEDADE! Os valores do mundo mudaram e a forma de se contar histórias também.
“O Senhor dos Anéis” possui uma narrativa mais romântica, mas era assim que os
autores escreviam as histórias em 1937.
Peguem uma história original de Conan, escrita por Robert E.
Howard e publicada durante a década de 1930. Embora muitas pessoas consigam
relacionar o personagem mais facilmente a “Game of Thrones”, a forma com qual
suas aventuras foram produzidas possuem um estilo épico que se assemelha muito
mais à obra de Tolkien do que a de Martin.
“Game of Thrones” nasceu em um período de tempo quando as
sensibilidades do público já haviam se diluído e embora o falso moralismo
esteja sempre presente, hoje é muito mais aceitável para um autor descrever as
necessidades fisiológicas e aventuras sexuais de seus personagens nas páginas
de seu livro.
É absurdo considerar uma obra melhor que outra, unicamente
pelo que a liberdade de uma era permite ou não a ela. Pelo raciocínio de Nana
Queiroz, eu posso dizer que Preacher é melhor que Tintim.
Oras pipocas, Preacher traz assassinato, desmembramentos,
defecação, bebedeiras, ressacas, abuso sexual e psicológico, bulimia, incesto,
racismo e um adolescente que deu um tiro de espingarda no próprio rosto,
sobreviveu e passou a se chamar de “Cara de Cu”. Nenhuma das histórias de
Tintim tem essas coisas, desta forma, Preacher é melhor que Tintim e Garth
Ennis é melhor que Hergé.
Pois é.
Aliás, “O Senhor dos Anéis” é um bocado violento. Muitos fãs
não gostaram que nos filmes, Gimli deixou de ser a máquina de matar
originalmente concebida por Tolkien, para tornar-se o alívio cômico da
história.
Então, parece que alguem aqui também não leu os
livros da série, non?
2) A linha entre bem e mal é muito
mais tênue – se é que existe
A segunda reclamação do artigo é que “Game of Thrones”
possui uma ambiguidade moral muito maior que em “O Senhor dos Anéis”.
Na obra de Tolkien, tudo é muito bem definido. Frodo é bom,
Gollum é mal, Aragorn é bom e Sauron é mal. Enquanto isso, em “Game of Thrones”,
cada personagem pode ser igualmente bom ou mau e muitas vezes, o pior
adversário não é aquele que vem de fora, mas sim aquele que está “dentro de sua
casa”.
Ok, é um argumento válido até certo ponto, mas que desaba se
analisarmos as duas histórias com a devida atenção.
Em “O Senhor dos Anéis”, temos um grupo formado pelos povos
da Terra Média, que pretende travar um último e derradeiro confronto com
Sauron, que é praticamente O DIABO EM PESSOA. Corrijam-me se eu estiver errado,
mas se o vilão da história é o capeta, é muito claro quem são os mocinhos da
parada.
“Game of Thrones” por sua vez, mostra diversos clãs e
famílias (ou “casas” se assim preferir) que disputam o poder em uma região. O título
da série é uma descrição exata do que acontece, com uma dezena de personagens
brigando em nome de sua ambição.
Então, a obra de Tolkien mostra bem e mal muito bem
definidos, em uma batalha final, enquanto a de Martin trabalha as traições
inerentes a qualquer região onde as pessoas estejam interessadas em aumentar
seu poder pessoal.
AMBAS SÃO FORMAS VÁLIDAS DE SE DAR PROSSEGUIMENTO A UMA
NARRATIVA, UMA NÃO É MELHOR QUE A OUTRA.
É óbvio que haverá muito mais ambiguidade em “Game of
Thrones”, pois o foco da história é a batalha pelo poder. Cada personagem está
interessado em conseguir o que é seu e todos podem ser apunhalados nas costas
mais dia, menos dia.
Já é mais difícil imaginar o mesmo acontecendo em um mundo
onde TODOS OS POVOS correm o risco de serem exterminados por um capeta
gigantesco que controla metade do continente. Mesmo assim, existe uma dose
considerável de tensão entre elfos e anões, para não mencionar a quase traição
de Boromir e o questionamento moral de Faramir, duas coisas que Nana Queiroz
dispensa, quase como se fossem uma nota de rodapé.
Ambiguidade moral é boa apenas se serve a uma narrativa
específica, exigir que a mesma esteja presente em todo tipo de história é o
tipo de postura que eu me acostumei a ver em adolescentes da década de 1990
obcecados com Spawn.
Querem um exemplo de como ambiguidade forçada não dá certo?
Em “All-Star Batman” (de nosso roteirista louco favorito, Frank Miller), o
Cavaleiro das Trevas sequestra Robin logo após o menino ver seus pais serem
assassinados e o larga sozinho em uma caverna, na tentativa de forçá-lo a comer
ratos.
É.
Já no desenho animado da Liga da Justiça, Batman é um herói,
ele é bom e não há uma gota sequer de moralismo questionável nele. E querem
saber? É uma das versões mais bem concebidas do personagem.
Sem mais perguntas, meritíssimo.
3) Martin não abusa das descrições como Tolkien
Adoro este item, simplesmente pela contradição no qual a
autora cai ao falar dele.
Nana declara que: “A Guerra dos Tronos não agradará aos
mais objetivos. Martin, porém, pega mais leve nas descrições do que
Tolkien. Claro que o continente Westeros é tão bem imaginado e
descrito quanto a Terra Média e o leitor poderá saborear detalhes das capas de
cavaleiros e dos bosques sagrados - há até um mapa do território dos Sete
Reinos nas primeiras páginas.”
Mas espera, se “Martin não abusa das descrições” e “pega
mais leve nelas do que Tolkien”, como o continente de Westeros pode ser tão bem
imaginado e descrito quanto a Terra Média? Se uma coisa é tão bem destrinchada
quanto a outra, então não pode ser considerada superior, correto?
Eis que o gosto pessoal da autora entra em cena, pois ela se
explica ao dizer que “Crônicas não é cansativo ou enfadonho como Senhor dos
Anéis”.
Eu sou o primeiro a admitir que “O Senhor dos Anéis” é um
livro cansativo, tanto que eu não consegui terminar de ler. Mas muita gente,
MUITA GENTE MESMO, se delicia com a forma que Tolkien fala sobre cada folha da
floresta por onde os heróis passam. Do mesmo jeito que existem inúmeras pessoas
que são apaixonadas pela forma com o qual Martin descreve cada cena e objeto
presente.
Usar sua preferência pessoal como forma de
pregar a superioridade de uma obra sobre outra, é o que adolescentes fazem ao
debater no Orkut. Um adulto escrevendo para um veículo tão conhecido quanto a
Veja deveria repensar suas palavras antes de entregar seu artigo.
4) Martin não tem nenhum princípio
Aqui, temos um repeteco do primeiro item, em que a autora
explica que a obra de Martin é superior por causa das descrições gráficas de
violência e sexo que nela estão presentes.
Mais precisamente, ela diz que “ Tudo que é sujo e já
existiu na humanidade está presente na trama: traição, incesto,
prostituição, roubo, estupro, violência, crueldade, infanticídio, eutanásia,
aborto. Pode pensar no que quiser de sórdido e moralmente questionável, estará
lá.”
Mais uma vez, violência e sexo descritos de forma explícita
são considerados por Nana como uma vantagem sobre a obra de Tolkien. Ela bem
que podia ter unido este e o primeiro item e pensado em outro diferente para
complementar a lista... mas creio que ela ficou sem idéias no meio do caminho e
resolveu enrolar seu caminho até a vitória.
Novamente, épocas diferentes, estilos diferentes. Uma obra
ser mais violenta ou cheia de sexo não a torna superior a outra, tampouco mais
realista.
“Preacher” é verossímil?
Daqui a pouco vai me dizer que “Os Bórgia” é uma obra muito
mais convincente e bem escrita que Asterix, é só o que falta.
Vamos ao próximo item.
5) O autor de Crônicas não se ofende se você encontrar alegorias
nos livros
Esse aqui é fantástico, simplesmente pela bobagem enorme que
é dita no artigo original.
Aparentemente, Tolkien não gostava quando os fãs tentavam
lhe apresentar alegorias que haviam percebido em sua obra, enquanto Martin não
liga pra isso.
Primeiro, como já cansei de falar, ambos os autores nasceram
e trabalharam em épocas diferentes. Tolkien era Inglês, nasceu em 1892, foi
educado em uma época muito mais rígida que a de Martin e com certeza era muito
mais reservado e menos disposto a dialogar com seus fãs.
Martin, por outro lado, nasceu em 1948 e cresceu nos Estados
Unidos da década de 1960. Ele trabalha como escritor em uma época em que
contato com os fãs não apenas é possível, como também necessário. O sujeito
sabe que fazer sala na Comic Com, escutar seus leitores e trocar apertos de
mãos com eles, significa dinheiro no banco mais pra frente.
Mas independente do comportamento dos dois escritores, Nana
Queiroz está dizendo que uma vez que Martin é mais “gente boa”, sua obra é
instantaneamente melhor.
Certo.
Já ouviram falar de Orson Welles? Ele foi um cineasta que
escreveu, dirigiu e atuou em um pequeno filme chamado “Cidadão Kane”.
Welles era um gênio a frente de seu tempo, mas também era um
babaca com ego imenso e que destratava qualquer um que ele considerasse não
estar a sua altura como entidade teatral.
Ei, não precisam acreditar em mim. Podem ouvir o homem sendo
um cretino com a equipe que o atendeu quando ele gravava a narração de um
comercial.
Novamente, se seguirmos o raciocínio do artigo, toda a obra de
Orson Welles deve ser desconsiderada, porque o cara era um babaca.
Reluto em aceitar este argumento.
Aliás, eu sei que já critiquei muito Orson Welles, mas
sempre me baseei em sua postura como ser humano. Eu nunca disse uma vírgula
sequer sobre seu trabalho.
Que bom que nos entendemos.
6) Ao terminar os capítulos de Crônicas o leitor está sem ar
Mais uma vez, opinião pessoal usada como se fosse um critério absoluto de qualidade.
Nana prega a superioridade de “Game of Thrones”, ao dizer que a narrativa de “O Senhor dos Anéis” se torna lenta em alguns momentos, o que raramente acontece em “Game of Thrones” e torna a obra muito mais difícil de se largar.
Vou dizer outra vez, pois parece que das outras não fez efeito: CADA HISTÓRIA FLUI DA FORMA QUE SERVIR MELHOR À SUA NARRATIVA!
Quando a série Harry Potter estava sendo lançada, eu devorava cada livro em uma noite. J.K Rowling escreve de forma simples e rápida, e é muito fácil se perder em sua narração e deixar-se levar pelo mundo que ela criara.
Mas eu também lí Musashi, que foi lançado em dois volumes de quase mil páginas cada. Acho que levei cerca de um mês para terminar a saga, pois lia cerca de dois capítulos por dia e já me dava por satisfeito.
Musashi é uma obra mais cansativa que Harry Potter, sem dúvida. Mas nem por isso ela se torna menos interessante. O escritor não tem obrigação de criar livros cheios de adrenalina, que o façam ficar excitado e empolgado com cada palavra, pois ele sabe que não terá como agradar a todos os gostos.
Tem gente que leu Musashi de uma sentada só, assim como houveram aqueles que devoraram O Dia do Coringa em um único dia. As pessoas tem ritmos diferentes para lerem livros e se cansam mais com uns do que com outros, mas de forma alguma isso deve ser usado como forma de definir o valor de uma obra.
Se levarmos este pensamento a sério, Luluzinha Jovem é melhor que “Game of Thrones”. Garanto que um gibi da personagem será menos cansativo que a obra de Martin.
Mais uma vez, opinião pessoal usada como se fosse um critério absoluto de qualidade.
Nana prega a superioridade de “Game of Thrones”, ao dizer que a narrativa de “O Senhor dos Anéis” se torna lenta em alguns momentos, o que raramente acontece em “Game of Thrones” e torna a obra muito mais difícil de se largar.
Vou dizer outra vez, pois parece que das outras não fez efeito: CADA HISTÓRIA FLUI DA FORMA QUE SERVIR MELHOR À SUA NARRATIVA!
Quando a série Harry Potter estava sendo lançada, eu devorava cada livro em uma noite. J.K Rowling escreve de forma simples e rápida, e é muito fácil se perder em sua narração e deixar-se levar pelo mundo que ela criara.
Mas eu também lí Musashi, que foi lançado em dois volumes de quase mil páginas cada. Acho que levei cerca de um mês para terminar a saga, pois lia cerca de dois capítulos por dia e já me dava por satisfeito.
Musashi é uma obra mais cansativa que Harry Potter, sem dúvida. Mas nem por isso ela se torna menos interessante. O escritor não tem obrigação de criar livros cheios de adrenalina, que o façam ficar excitado e empolgado com cada palavra, pois ele sabe que não terá como agradar a todos os gostos.
Tem gente que leu Musashi de uma sentada só, assim como houveram aqueles que devoraram O Dia do Coringa em um único dia. As pessoas tem ritmos diferentes para lerem livros e se cansam mais com uns do que com outros, mas de forma alguma isso deve ser usado como forma de definir o valor de uma obra.
Se levarmos este pensamento a sério, Luluzinha Jovem é melhor que “Game of Thrones”. Garanto que um gibi da personagem será menos cansativo que a obra de Martin.
7) Há mais reviravoltas na trama em um livro de Martin do que em todas as obras do Tolkien juntas
SIM, PORQUE ISSO SERVE À NARRATIVA!!!!!!
“O SENHOR DOS ANÉIS” TRATA DE UMA BATALHA ENTRE O BEM E O MAL, NÃO PRECISA DE MUITAS REVIRAVOLTAS!!! “GAME OF THRONES” MOSTRA UM JOGO DE PODER! SAFADEZAS, PILANTRAGENS E A POSSIBILIDADE DE QUALQUER PERSONAGEM MORRER SÃO COISAS OBRIGATÓRIAS EM UMA HISTÓRIA DESSAS!!!
Quantos livros a autora desse artigo leu na vida? A série “Game of Thrones” e o capítulo do Tom Bombadil? Porque é o que tá parecendo.
8) O leitor troca de olhos a cada capítulo
Espero não ficar repetitivo demais, pois neste tópico mais uma vez falarei sobre narrativa.
Nana diz que “Game of Thrones” é superior, pois cada capítulo é contado do ponto de vista de um personagem diferente. Seu exemplo neste tópico é Tyrion Lannister, apresentado inicialmente como membro de um dos clás mais lazarentos de seu reino. Mas assim que a história passa a ser contada por seu ponto de vista, vemos que ele não é tão canalha assim e tem motivos para agir como o faz.
Ok, muito justo. Mas a autora esquece MAIS UMA VEZ que isso serve ao prosseguimento da história.
Como estabeleci anteriormente, “Game of Thrones” é um épico sobre famílias e clãs rivais que lutam pelo poder absoluto em uma terra medieval. Em uma história como essas, faz todo o sentido do mundo que o autor mostre como cada um de seus personagens pensa, pois desde o início, sua intenção é mostrar como não existe ninguem absolutamente bom ou mal em sua saga.
O mesmo não se faz necessário em “O Senhor dos Anéis”, onde o mal absoluto é tão bem definido desde o começo. De que serviria ver a história do ponto de vista de Sauron? Ele é um ser desencarnado, que provavelmente veio de outro plano de existência, cheio de fogo, enxofre e advogados. Como melhoraria a história se soubessemos em mais detalhes quais são suas motivações?
Aliás, sendo o horror inconcebível que é, será que deveriamos mesmo tentar entender aquilo que o motiva?
Claro que este é um exemplo extremo, mas acho que me fiz entender. Nem todos os livros precisam seguir a mesma forma de progressão, o autor sabe o que é melhor para seus personagens e se o público concorda com ele ou não, já não está em suas mãos.
Não existe uma única maneira de se escrever uma história e todos fariam bem em lembrar disso.
9) Há personagens para todos os gostos
Aqui é onde Nana comete uma das maiores falácias de seu texto (superada apenas pelo 10º item), ao dizer que: “Enquanto as criaturas de O Senhor dos Anéis são movidas por honra ou ódio, os moradores de Westeros respondem à chantagem, rancor, paixão, amor, luxúria, fidelidade, ambição e confusão – motivações muito mais próximas da realidade.”
Em primeiro lugar, se uma história tem dragões, classificá-la como “mais realista” do que outras é uma bobagem enorme.
Em segundo lugar, esse é o tipo de afirmação que mais parece ter vindo de um fanboy desesperado em defender sua série favorita, do que de um jornalista que pesquisou apropriadamente sobre o assunto que dissertaria.
Vou mostrar seu erro em dois exemplos.
Frodo Bolseiro é um herói relutante. Ele não quer a missão de ter de destruir o Um Anel, mas também viu todo o mal que ele pode trazer. Inicialmente, ele parece o herói perfeito, destemido e determinado, mas fraqueja inúmeras vezes ao longo de sua missão e quase deixa o artefato cair nas mãos dos inimigos em mais de uma ocasião.
Eis que entra Samwise Gamgi, que caiu de para-quedas na aventura. Sam não é forte, rápido, atlético, nem especialmente inteligente. Suas virtudes são sua lealdade quase infinita para com Frodo e seu coração gigantesco, que são as duas coisas que conseguem manter seu amigo no caminho de sua missão, até que ele consiga completá-la.
Ele também proferiu uma das frases que mais adoro em toda a saga: “Posso não carregar o Anel para você, senhor Frodo... mas posso carregar você!”
“Honra e ódio”? Sério que é só isso que Nana Queiroz conseguiu ver na obra de Tolkien?
E mais uma coisa, a amizade de Frodo e Sam, que tanta gente achou “suspeita”, é uma reprodução fiel do relacionamento que soldados mantém quando voltam do campo de batalha. Homens que passaram juntos por uma experiência traumática terão uma camaradagem que as demais pessoas não compreenderão, afinal, um sabe o quanto o outro sofreu.
Aliás, Tolkien lutou na Primeira Guerra Mundial e transmitiu o que aprendeu no conflito para seus personagens.
É realismo o suficiente pra vocês?
“Game of Thrones” pode ter sim mais personagens que “O Senhor dos Anéis”, mas isso não quer dizer que existe uma chance maior de identificação com eles do que com os moradores do Condado.
Nana também disse que Martin criou mais de mil personalidades distintas em sua história. Embora eu acredite que ele possa ter inventado tantos coadjuvantes, duvido muito que todos possuam tempo de história o suficiente para notarmos as nuances que existem entre eles.
Aqui é onde Nana comete uma das maiores falácias de seu texto (superada apenas pelo 10º item), ao dizer que: “Enquanto as criaturas de O Senhor dos Anéis são movidas por honra ou ódio, os moradores de Westeros respondem à chantagem, rancor, paixão, amor, luxúria, fidelidade, ambição e confusão – motivações muito mais próximas da realidade.”
Em primeiro lugar, se uma história tem dragões, classificá-la como “mais realista” do que outras é uma bobagem enorme.
Em segundo lugar, esse é o tipo de afirmação que mais parece ter vindo de um fanboy desesperado em defender sua série favorita, do que de um jornalista que pesquisou apropriadamente sobre o assunto que dissertaria.
Vou mostrar seu erro em dois exemplos.
Frodo Bolseiro é um herói relutante. Ele não quer a missão de ter de destruir o Um Anel, mas também viu todo o mal que ele pode trazer. Inicialmente, ele parece o herói perfeito, destemido e determinado, mas fraqueja inúmeras vezes ao longo de sua missão e quase deixa o artefato cair nas mãos dos inimigos em mais de uma ocasião.
Eis que entra Samwise Gamgi, que caiu de para-quedas na aventura. Sam não é forte, rápido, atlético, nem especialmente inteligente. Suas virtudes são sua lealdade quase infinita para com Frodo e seu coração gigantesco, que são as duas coisas que conseguem manter seu amigo no caminho de sua missão, até que ele consiga completá-la.
Ele também proferiu uma das frases que mais adoro em toda a saga: “Posso não carregar o Anel para você, senhor Frodo... mas posso carregar você!”
“Honra e ódio”? Sério que é só isso que Nana Queiroz conseguiu ver na obra de Tolkien?
E mais uma coisa, a amizade de Frodo e Sam, que tanta gente achou “suspeita”, é uma reprodução fiel do relacionamento que soldados mantém quando voltam do campo de batalha. Homens que passaram juntos por uma experiência traumática terão uma camaradagem que as demais pessoas não compreenderão, afinal, um sabe o quanto o outro sofreu.
Aliás, Tolkien lutou na Primeira Guerra Mundial e transmitiu o que aprendeu no conflito para seus personagens.
É realismo o suficiente pra vocês?
“Game of Thrones” pode ter sim mais personagens que “O Senhor dos Anéis”, mas isso não quer dizer que existe uma chance maior de identificação com eles do que com os moradores do Condado.
Nana também disse que Martin criou mais de mil personalidades distintas em sua história. Embora eu acredite que ele possa ter inventado tantos coadjuvantes, duvido muito que todos possuam tempo de história o suficiente para notarmos as nuances que existem entre eles.
10) As Crônicas de Gelo e Fogo duram mais
Essa afirmação é tão infantil, que não sei se rio ou me
enfureço com ela.
Ok, eis o que a autora escreveu: “Só em número de livros já escritos As Crônicas de Gelo e Fogo já superam O Senhor dos Anéis. As páginas também são abundantes: mais de 550 por livro (versões em inglês chegam a 1.000 páginas). E a promessa é que a série some sete títulos."
Então, o número de volumes de uma saga e a quantidade de páginas definem se ela é melhor ou pior que as demais? Neste caso, One Piece é sem dúvida MUITO SUPERIOR a “Game of Thrones”, uma vez que já teve 64 volumes lançados e já passou de 10.000 páginas produzidas.
Mas calma, fica melhor. Nana Queiroz fecha seu texto com a seguinte afirmação: “A melhor parte? Martin ainda está vivo, então pode aumentar esse número nos próximos anos – se quiser. Coisa que Tolkien só conseguiria se arrumasse um médium para psicografá-lo...”
Exatamente! COMO OUSA, TOLKIEN??? COMO PÔDE TER MORRIDO, QUANDO DEVERIA ESTAR VIVO ATÉ HOJE, COM QUASE 120 ANOS E DANDO PROSSEGUIMENTO A SUA OBRA, PARA ATENDER O CLAMOR DE SEUS FÃS??? OOOOHHHHHHH, A INFÂMIA!!!
Entendo que foi uma tentativa de piada, mas fracassou miseravelmente. E o fato de um escritor estar vivo e poder prosseguir com seu trabalho não deve contar para a avaliação de qualidade de uma obra.
Sinceramente, eu esperava ver um comentário desses em um blog mantido por um guri de 12 anos, que está tentando explicar desesperadamente, porque Nutella é melhor que “O Senhor dos Anéis”. Não imaginava que tais palavras um dia teriam lugar no site da Veja, que é possivelmente um dos mais lidos no Brasil.
Mas até aí, a Veja publicou um artigo chamado “O Culto ao Lixo” em uma ocasião, em que seu autor crucificava qualquer um que se interessasse por Star Trek, brinquedos, enfim, tudo aquilo que nerds apreciam.
Somos lixo para eles, vejam só.
Entendo a vontade da autora de chamar a atenção para seu artigo. Um texto desses sem dúvida vai atrair o olhar de muita gente (estou há horas escrevendo sobre ele, ora pois) e falar bem de uma série tão popular quanto "Game of Thrones" sem dúvida conquista novos leitores... mas fazer uma pesquisa de verdade não teria machucado.
Então, era basicamente isso. Espero que os fãs de Thrones não me entendam mal, pois não tenho absolutamente nada contra a série. Ela me parece bem legal aliás, embora eu possa dispensar as cenas de nu frontal masculino que a HBO fez questão de enfiar lá em pelo menos uma ocasião.
Não lerei os livros, pois hoje em dia não gosto de ler tanto quanto no passado (culpa da ansiedade). Mas assim que minhas horas de folga diárias aumentarem, prometo dar uma chance ao seriado.
E por hoje é só. Elogios, críticas, declarações de amor ou ameaças de morte? Sabem onde deixá-las.
Antes de ir, quero agradecer ao João Nogueira, ao Lucas Rodolfo e a “vk” pela ajuda que me deram com certos pontos de “Game of Thrones”, sobre os quais eu não fazia a mínima idéia.
Se gostou de tudo isso, siga-me no Twitter: @hammerhx
Volto em breve com um artigo de games... provavelmente.
Cheers!!!
Ok, eis o que a autora escreveu: “Só em número de livros já escritos As Crônicas de Gelo e Fogo já superam O Senhor dos Anéis. As páginas também são abundantes: mais de 550 por livro (versões em inglês chegam a 1.000 páginas). E a promessa é que a série some sete títulos."
Então, o número de volumes de uma saga e a quantidade de páginas definem se ela é melhor ou pior que as demais? Neste caso, One Piece é sem dúvida MUITO SUPERIOR a “Game of Thrones”, uma vez que já teve 64 volumes lançados e já passou de 10.000 páginas produzidas.
Mas calma, fica melhor. Nana Queiroz fecha seu texto com a seguinte afirmação: “A melhor parte? Martin ainda está vivo, então pode aumentar esse número nos próximos anos – se quiser. Coisa que Tolkien só conseguiria se arrumasse um médium para psicografá-lo...”
Exatamente! COMO OUSA, TOLKIEN??? COMO PÔDE TER MORRIDO, QUANDO DEVERIA ESTAR VIVO ATÉ HOJE, COM QUASE 120 ANOS E DANDO PROSSEGUIMENTO A SUA OBRA, PARA ATENDER O CLAMOR DE SEUS FÃS??? OOOOHHHHHHH, A INFÂMIA!!!
Entendo que foi uma tentativa de piada, mas fracassou miseravelmente. E o fato de um escritor estar vivo e poder prosseguir com seu trabalho não deve contar para a avaliação de qualidade de uma obra.
Sinceramente, eu esperava ver um comentário desses em um blog mantido por um guri de 12 anos, que está tentando explicar desesperadamente, porque Nutella é melhor que “O Senhor dos Anéis”. Não imaginava que tais palavras um dia teriam lugar no site da Veja, que é possivelmente um dos mais lidos no Brasil.
Mas até aí, a Veja publicou um artigo chamado “O Culto ao Lixo” em uma ocasião, em que seu autor crucificava qualquer um que se interessasse por Star Trek, brinquedos, enfim, tudo aquilo que nerds apreciam.
Somos lixo para eles, vejam só.
Entendo a vontade da autora de chamar a atenção para seu artigo. Um texto desses sem dúvida vai atrair o olhar de muita gente (estou há horas escrevendo sobre ele, ora pois) e falar bem de uma série tão popular quanto "Game of Thrones" sem dúvida conquista novos leitores... mas fazer uma pesquisa de verdade não teria machucado.
Então, era basicamente isso. Espero que os fãs de Thrones não me entendam mal, pois não tenho absolutamente nada contra a série. Ela me parece bem legal aliás, embora eu possa dispensar as cenas de nu frontal masculino que a HBO fez questão de enfiar lá em pelo menos uma ocasião.
Não lerei os livros, pois hoje em dia não gosto de ler tanto quanto no passado (culpa da ansiedade). Mas assim que minhas horas de folga diárias aumentarem, prometo dar uma chance ao seriado.
E por hoje é só. Elogios, críticas, declarações de amor ou ameaças de morte? Sabem onde deixá-las.
Antes de ir, quero agradecer ao João Nogueira, ao Lucas Rodolfo e a “vk” pela ajuda que me deram com certos pontos de “Game of Thrones”, sobre os quais eu não fazia a mínima idéia.
Se gostou de tudo isso, siga-me no Twitter: @hammerhx
Volto em breve com um artigo de games... provavelmente.
Cheers!!!










