terça-feira, 13 de outubro de 2015

Mês das Bruxas: 25 Clássicos do Terror - Sexta-Feira 13


E cá estamos, finalmente, com uma das obras mais essenciais da história do cinema de terror.

Sim! Sexta-Feira 13! O filme que todo moleque com um videocassete assistiu a exaustão nos anos 1980, e que foi responsável por uma das séries mais duradouras de todos os tempos.

Bom, trinta anos se passaram. Será que esta pérola se sustenta ainda hoje?

Na verdade, não. É uma produção bem bosta.


Poucas coisas representam "bem bosta" melhor do que a
fusão de Tom Selleck e Harry Potter vista acima

Nossa aventura começa bem longe da civilização. Uma adolescente gatinha chega a uma cidade do interior e pede direções para chegar no Acampamento Crystal Lake, pois ela foi contratada para trabalhar lá durante o verão. Assim que se apresenta, todos os velhos da cidade olham feio pra ela e deixam bem claro que aquele lugar é ruim, maligno, DO SATANÁS! Mas a menina não escuta, pois ela é jovem e do alto de seus 18 anos, ela já viu tudo que há para se ver na vida, e não acredita em superstições, COROOOOOOOA!

Vinte minutos depois, ela é degolada no meio do mato.

HÁ!

Enquanto isso, no acampamento, um bando de jovens biltres trabalha duro pra reformar o lugar. O acampamento foi fechado, porque dois monitores foram assassinados no local, vinte anos antes. Agora, seus donos decidiram reabri-lo e contrataram uma molecada pra reformar o local, em preparação para as crianças que virão tirar férias nele em breve.

E claro, como estão sozinhos na floresta, todos os jovens envolvidos na restauração consomem ÁLCOOL, e DROGAS, e se envolvem com SEXO PRÉ-NUPCIAL! E um a um, eles são mortos pelo misterioso assassino local, que não parece gostar muito de putarias adolescentes.

Aliás, SPOILERS A SEGUIR, para os dois dentre vocês que estavam envolvidos em guerras civis no leste europeu nas últimas três décadas e não sabem nada sobre esta série.

O assassino era na verdade Pamela Voorhees, que décadas antes, foi a responsável pelas mortes que forçaram o acampamento a ser fechado. O que aconteceu é que na época ela era a cozinheira do lugar, e decidiu levar seu filhote Jason para se divertir um pouco com as outras crianças no verão.

Infelizmente, Jason se afogou no lago. Porque os monitores que deviam estar vigiando a garotada estavam mais interessados em ENCAIXAR O LEGO do que cumprir com seus deveres. Desde então, mamãe Voorhees vaga pelo acampamento Crystal Lake e mata qualquer um que passe por lá, para impedir que este local maldito seja reaberto.

Claro, o lugar não seria amaldiçoado se ela não trucidasse todo mundo que vai lá. Mas não dá pra se argumentar logicamente com certas pessoas.

Falta de lógica e fúria assassina. Pamela Voorhees era o
Tumblr do seu tempo

O filme foi idealizado pelo produtor Sean S. Cunningham, que havia trabalhado com Wes Craven no passado e decidiu produzir uma história de terror na mesma linha de Halloween. Antes mesmo de ter um roteiro, ele escolheu o nome Sexta-Feira 13 e contratou uma agência de publicidade de Nova York para criar seu logotipo.

O script foi escrito por Victor Miller, que eventualmente se tornaria autor de novelas norte americanas. Ele achava interessante a ideia de uma mãe que se torna uma assassina para vingar a morte de seu filho. E a caracterização de Betsy Palmer apenas reforça essa característica da personagem.

A atriz tentou entrar na mente de Pamela Voorhees para melhor fazer a personagem funcionar. Ela a imaginou como uma mulher que engravidou na adolescência e foi deserdada por sua família por isso. Com o passar dos anos, ela fez seu melhor para criar Jason como mãe solteira, e quando o garoto se afogou em Crystal Lake, ela simplesmente enlouqueceu. Os monitores que deviam vigiá-lo estavam transando no momento do acidente... Algo que foi o início de todos os seus problemas... E graças a isso, sua psicose adquiriu um viés muito puritano, e Pamela decidiu que deveria castigar todos aqueles que cedessem a seus impulsos “hedonistas” e “sujos”.

É um bocado de investimento emocional, se vocês me perguntarem. E eu não esperava menos de uma atriz clássica como Betsy Palmer.

Infelizmente, ela só aparece nos 15 minutos finais... Então... É.

Outro membro de destaque da equipe é Tom Savini, mago dos efeitos visuais, que foi contratado porque os produtores ficaram apaixonados pelo seu trabalho em O Despertar dos Mortos. De fato, Savini tinha muita influência no set e teve a liberdade de acrescentar cenas que não estavam no script original.

Uma delas é o momento em que os personagens encontram uma cobra numa das cabanas do acampamento e a matam. Savini teve esta ideia quando uma cobra invadiu o alojamento em que ele dormia durante as filmagens, e achou que ela seria interessante para aclimatar o público ao ambiente onde tudo acontecia

Infelizmente, a cobra da cena foi realmente morta por um dos atores, algo que pessoalmente me desagrada. Não aprovo que animais sejam feridos ou sacrificados por entretenimento, e este é apenas um dos muitos pontos negativos dessa brincadeira.

Mate o Kevin Bacon. Ninguém liga pra ele

Agora, este filme tem diversos problemas, então vamos discuti-los um de cada vez. O primeiro, e talvez pior, é que não há um protagonista definido no roteiro.

O que é um protagonista? Bem, a explicação mais simples é: É o personagem que resolve o conflito apresentado na trama.

O Coringa quer explodir uma bomba nuclear em Gotham. Batman o impede. Ele é o protagonista.

Peach é sequestrada pelo Bowser de novo. Mario vai e a resgata. Ele é o protagonista.

Um templo perdido no Tibete tem relíquias inestimáveis para a humanidade e permaneceu intocado por séculos. Uma inglesa louca chamada Lara Croft entra no lugar e atira em tudo que encontra. Ela é a protagonista.

Além disso, o protagonista tem a função de ser o personagem que carrega o enredo. O acompanhamos desde o começo, queremos que ele supere seus conflitos e tenha um final feliz quando concluir sua jornada.

Em Sexta-Feira 13, o mais próximo que temos deste papel é Alice (Adrienne King), mas apenas no ato III da história e mais porque ela é forçada a assumir este papel, sendo que precisa enfrentar a fúria da senhora Voorhees (Betsy Palmer) para sobreviver.

E nenhum dos outros personagens é interessante. A série sequer tinha começado a investir nos estereótipos clássicos do gênero (o maconheiro, o gordo bobo, a broaca, a santinha, etc), então temos um bando de jovens que possuem tanta personalidade quanto o pratinho de água do seu gato. É difícil sentir algum tipo de interesse ou empatia quando eles morrem.

Eu estou fazendo café. Olha como eu sou interessante.
Aqui. Nesta cena. Fazendo café. C-A-F-É...

Sexta-Feira 13 também sofre da falta de um bom antagonista. No início do filme vemos um casal de monitores serem mortos, e ao longo da história, diversos dos personagens vão pro vinagre, mas não sabemos quem está causando estes assassinatos.

Pamela Voorhees não é apresentada até os 45 minutos do segundo tempo. Não há nenhum desenvolvimento para sua personagem, ela simplesmente aparece, revela que é a assassina e pronto. Se ela estivesse presente desde o começo da história, sendo mostrada como uma senhora boazinha e no último segundo descobríssemos que era a assassina, seria uma forma interessante da história se desenrolar. Mas infelizmente não foi como aconteceu.

Provavelmente porque Betsy Palmer não estava disposta a aparecer no filme inteiro. Apesar de ter bolado todo um passado para sua personagem, a atriz odiou trabalhar em Sexta-Feira 13, e só o fez porque precisava desesperadamente de um carro novo.

Assim, na maior parte do tempo, vemos as mortes em primeira pessoa, ou apenas vemos a mão do maníaco. Não há um herói por quem possamos nos afeiçoar, nem podemos torcer pelo vilão, como se tornaria a tradição no futuro.

Sem contar que Sexta-Feira 13 é extremamente lento, e absolutamente nada acontece na maior parte do tempo. Os personagens simplesmente vagam pelo cenário, desperdiçando o tempo deles e o nosso, até que finalmente são mortos.

E as mortes aqui mostradas não são nem de longe criativas como as que veríamos em suas continuações.

Machadadas na cara são tãããããão demodê...

A série Sexta-Feira 13 é ruim... Mas extremamente divertida. De certa forma, eu acho que se assemelham muito aos filmes do Godzilla.

Não, sério.

Os filmes do Godzilla são péssimos. Seus roteiros são ruins, as atuações horrendas, mas conseguimos ignorar tudo isso porque no fim das contas, os assistimos apenas para ver dois monstros gigantes encherem um ao outro de porrada e destruírem todo o cenário no processo.

Aqui a coisa é parecida, exceto que queremos ver um cara enorme, puto da vida e que usa uma máscara de hóquei, trucidando os adolescentes mais irritantes que puder encontrar, das maneiras mais hardcore que conseguir. Esta é a identidade da franquia, e o primeiro longa não estava nem perto de descobri-la.

Sexta-Feira 13 não possui o suspense bem construído de Halloween, nem a loucura sufocante de O Massacre da Serra Elétrica, tampouco brinca com a percepção do público, como A Hora do Pesadelo. É apenas uma história maçante, com uma abertura ok, um desfecho bom, e muito pouco conteúdo entre tudo isso.

É difícil recomendar esta película por seus próprios méritos, mas ela tem seu valor. Afinal, foi o primeiro passo daquela que se tornou uma das franquias mais icônicas do cinema de terror. Se quiser assisti-la por curiosidade histórica, vá em frente.

Mas se preferir começar pelo ponto em que a série se torna divertida de verdade, recomendo que assista Sexta-Feira 13 Parte III. Foi o ponto de partida para a maior parte da minha geração.

"Bom dia, moça! Já conhece os serviços da GVT?"

Esqueci de falar alguma coisa?

Ah sim, a cena final! Em que Jason brota da água, na forma de um guri cadavérico e arrasta Alice para o fundo do lago.

Também não estava no script e também foi ideia de Tom Savini.

Bom trabalho, senhor Savini.

Cheers!!!

2 comentários:

Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...

Eu iria perguntar como o Jason aparece no filme, mas já responderam a pergunta. De vez em quando esse filme passa num TCM da vida, mas se até o Amer acha o filme parado, fiz bem ignora-lo até agora. É não curto filmes onde " O Mal " vence. É tipo se contassem o final do filme, se todo mundo morre, pra que vou assistir?

Talvez para saciar nosso lado "açougueiro "? Eu não sei...

Giovanni Seiji disse...

Aaah, Bom e velho Jason.
Esse mês está demais Grande Amer! Quase não consigo acompanhar a velocidade com que você está escrevendo!
ISSO É EXCELENTE!!!

E gostei do fato do post ser o 13º do mês. Não sei se foi proposital, mas gostei!