sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Mês das Bruxas: 25 Clássicos do Terror - Carrie, a Estranha


E vamos começar nosso Mês das Bruxas com a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de Stephen King.

Que provavelmente é também o único filme de terror da história em que temos vontade de abraçar o monstro e dizer: “Calma, vai ficar tudo bem.”

Aliás, SPOILERS A SEGUIR... Se bem que o final de Carrie, a Estranha já foi tão parodiado e referenciado na cultura pop, que eu acho que não exista uma pessoa sequer que não conheça o plot inteiro deste filme, mesmo sem tê-lo assistido.

Seja como for, vamos nós!

A história se passa em uma daquelas escolas onde todos os alunos
estão na casa dos 30 anos

A história gira em torno de Carrie White (Sissy Spacek), uma menina tímida, quieta, que tenta o máximo possível não ficar em evidência. Todos conhecemos alguém assim na escola, e também sabemos que estas são as pessoas que mais frequentemente se tornam alvo de bullying.

Não basta ser o alvo de todas as piadas da escola, Carrie ainda tem de lidar com sua mãe Margaret (Piper Laurie), uma fanática religiosa que a espanca diariamente e sem motivo, e a tranca em um armário que faria o lugar onde Harry Potter dormia parecer um apartamento de luxo.

Um dia, após uma aula de educação física, Carrie tem sua primeira mentruação no vestiário da escola, o que faz todas as meninas caçoarem dela. Claro, ela apanha da mãe ao chegar em casa, pois de acordo com a velha, ela agora “carrega o pecado” dentro de si.

Mas as coisas eventualmente melhoram. As meninas que caçoaram de Carrie são punidas, e a menina é convidada para o baile da escola por Tommy (William Katt) um dos bonitões locais. Além disso, ela aprende a controlar melhor seus poderes.

Esqueci de dizer, Carrie tem telecinésia, e pode mover objetos com sua mente. É uma história de Stephen King, afinal.

Mas Chris (Nancy Allen), a maior broaca da escola, quer acabar com a vida de Carrie. Ela recruta seu namorado extra-italiano Billy (John Travolta, quando ainda tinha cabelo e dentes) e os dois armam um plano lanfranhudo para se vingar de Carrie.

Então, chega a noite do baile, Carrie se diverte, dança, conversa e fica feliz. Quando tudo parece lindo e perfeito... Chris e Billy despejam um balde de sangue de porco em nossa heroína.

Carrie então despiroca e usa seus poderes para matar a escola inteira, em uma das cenas de massacre mais épicas da história do cinema.

Mesmo! Jason ficaria orgulhoso dela e a pediria em namoro.

Eu pediria, ao menos.

Por que quem pode resistir a estes olhos lindos, tão cheios
de ódio assassino?

O que faz este filme funcionar é a atuação de Sissy Spacek. Não havia outra atriz que pudesse dar vida a Carrie de forma tão perfeita.

Spacek é bonita, mas estranha. Ela tem aquela vibe de “pessoa que quer ser deixada sozinha”, e com isso passa toda a solidão e vulnerabilidade que a personagem precisa. Carrie patética, mas aquele tipo de pessoa de quem sentimos pena, que acreditamos que precisa apenas de um empurrãozinho para se acertar na vida. Este é o tom do filme, e ele toca nosso coração como um pianista em um concerto.

O filme nos apresenta Carrie e a vida difícil com a qual ela precisa lidar. Temos empatia por esta garota que não faz mal a ninguém e para quem a vida parece não dar uma folga. Odiamos mais sua mãe a cada cena, e a cada uma das cretinas da escola que não a deixam em paz. Como eu disse no início, temos vontade de entrar no filme, abraçar Carrie e protegê-la, durante toda a história.

Então, ela aceita o convite para o baile e tudo começa a mudar. A menina passa a se gostar mais, começa a se livrar da influência tóxica de sua mãe e se permite desfrutar uma noite normal no baile da escola. Vibramos com cada nova superação e torcemos pela sua felicidade.

E quando ela é coroada como rainha do baile, quando está feliz, sorrindo e se permitindo ser como todos... É aí que a merda acerta o ventilador.

E o público fica de coração partido, afinal, ela quaaaaaaaaase consegui. Carrie se esforçou tanto para ser normal e chegou tão perto disso. Mais uma hora e ela teria virado uma nova página em sua vida, mas infelizmente o destino não quis que fosse assim.

O resto do elenco também é excelente, com destaque para Piper Laurie como a mãe da protagonista. A personagem trata a própria filha com tamanho desprezo que chega a ser desconcertante. Em uma cena onde as duas jantam, Carrie conta que irá ao baile da escola e Margaret reage jogando café em seu rosto. A forma mecânica como ela faz isso indica que humilhar a filha deste jeito era algo comum em seu dia-a-dia.

Curiosamente, Laurie achava que a religiosidade de Margaret foi representada de forma tão exagerada, que não havia como ela ser levada a sério. O diretor Brian de Palma teve de explicar a ela que o filme não era uma comédia, mas sim terror, e que sua personagem devia ser interpretada de acordo. Mesmo assim, a atriz ainda achava graça nas falas de sua personagem e gargalhava em diversas cenas.

Da mesma forma, Nancy Allen e John Travolta viam seus personagens como sendo tão estúpidos e egoístas, que ambos acreditaram que eles eram o alívio cômico do filme. Apenas depois que viram a obra concluida que eles se deram conta de que eram os vilões da história.

Algumas pessoas são lentas.

No futuro, Nancy Allen trabalharia em RoboCop 3 e Poltergeist III. Esta foi a punição
kármica por ser tão broaca com Carrie

Quando eu era criança, Carrie, a Estranha era aquilo que eu chamava de “filme adulto”. Isso porque os primeiros minutos da história se passam em um vestiário feminino, e podemos contemplar nudez frontal completa de várias das garotas ali presente.

Sim senhor! Boobies, poupanças e aquelas virilhas não depiladas dos anos 1970, que faziam parecer que o Jackson Five morava no interior de cada garota. Não foi a primeira vez que eu vi um filme com nudez feminina (não em um mundo onde o SBT exibia Férias do Barulho todos os meses), mas nudez total era muito rara naqueles tempos, e qualquer longa que a trouxesse ficava arquivado em uma parte especial do meu cérebro. Era o tipo de filme que eu preferia assistir longe da presença dos meus pais, e que na minha mente infantil, me trazia aquela sensação boa de estar quebrando as regras ao fazê-lo.

Por curiosidade, A Vingança dos Nerds era outra obra que eu enquadrava na minha lista de “filmes para adultos”. Pelo exato mesmo motivo.

"O Amer admitiu que gostava de A Vingança dos Nerds!
Rápido, vamos rir dele!"

Agora, se me perguntarem, eu acho que o filme traz uma simbologia muito interessante, sobre como a sociedade condena a mulher, seu corpo e sua sexualidade.

O estopim que desencadeia toda a história, é o momento em que Carrie tem sua primeira menstruação no vestiário feminino. Ela entra em pânico, e as outras meninas caçoam dela. O que deveria ser uma coisa totalmente normal na vida de uma garota, torna-se motivo de chacota nas mãos de pessoas cruéis.

Na cena seguinte, vemos a professora que socorreu Carrie, com suas roupas ainda sujas com o sangue da menina, diante do diretor da escola, que olha com nojo para as manchas. Quantos homens não se sentem enojados por suas namoradas ou esposas quando elas passam pela menstruação? Não é difícil estar ao lado de sua cônjuge neste momento do mês, mas muitos se optam por afastar, por pura conveniência.

Depois, a pobre Carrie volta pra casa, e é prontamente espancada e trancada no armário por sua mãe fanática e ignorante. De certa forma, é como se representasse as diversas religiões que condenam a sexualidade feminina. Carrie teve sua primeira menstruação, ela está se tornando uma mulher, e aos olhos de alguém cego pela fé, a garota merece ser punida, por algo que é totalmente natural.

Finalmente Carrie começa a crescer como pessoa. Ela enfrenta sua mãe, aceita ir ao baile da escola, aprende a gostar mais de si mesma e se permite gostar de alguém. Ela está deixando a criança que foi para trás, e prepara-se para tomar o controle da própria vida, e se tornar a mulher que tanto deseja ser.

Então, despejam sangue de porco nela.

O sangue mais uma vez simbolizando a mentruação, faz todos rirem dela. O pouco progresso que ela fez se vai, porque mais uma vez, o mundo está caçoando de seu corpo, de sua feminilidade, de sua recém descoberta sexualidade. Um dos motivos que a levam a se transformar em um monstro, é perceber que ela será eternamente ridicularizada pelo mundo.

Não tanto por ser diferente, mas por ser mulher.

Então, ela volta para casa e se lava. Ao limpar o sangue de seu corpo, é como se ela tentasse se livrar de tudo que fez dela uma mulher. E a cena seguinte, onde ela chora e implora pelo abraço da mãe apenas acentua este fato: o mundo é cruel com as mulheres, e Carrie quer voltar a ser uma criança.

Não sei se foi isso que Stephen King idealizou ao criar a história, mas é a interpretação que dei a ela. E o caso é que acho uma mensagem muito válida quase 40 anos após o lançamento do filme. Porque vivemos em um mundo que ainda condena demais a sexualidade feminina.

Vocês sabem. O cara que transa com um monte de garotas é um garanhão, a menina que transa com um monte de caras é uma vadia, esse tipo de bosta.

E é uma coisa que eu digo sempre. Se houve algo positivo com o fenômeno de Cinquenta Tons de Cinza, é que o livro ajudou muitas mulheres a não terem vergonha da sua sexualidade. Graças a ele, muitas mulheres puderam encontrar apoio uma na outra, e puderam desfrutar de literatura erótica sem se preocuparem com o julgamento da sociedade.

Mas fantasiar com Christian Grey ainda é preferível ao
Travolta da década de 1970.

Carrie, a Estranha teve duas outras adaptações. Uma para a televisão em 2002, com Angela Bettis no papel principal, e a mais recente em 2013, com Chloë Grace Moretz dando vida a personagem.

A versão de 2002 tentou servir como piloto de uma série de tevê que jamais foi produzida e difere muito do livro em diversos pontos. A crítica elogiou a produção, mas no geral, ela ainda foi considerada inferior a de 1976.

Já a versão de 2013 é um bocado agridoce em minha opinião. Por um lado, eu adoro Chloë Grace Moretz, e acho que ela tem potencial para ser a Meryl Streep de sua geração. O problema é que ela é bonita demais para o papel, de forma alguma ela seria a garota estranha da escola. Pelo contrário, ela é a menina que os rapazes sairiam no tapa para convidarem para ir ao baile. E sem o charme “esquisitinho” de Sissy Spacek, Carrie perde aquilo que a destaca e a torna verossímil para o público.

Verdade seja dita, o filme de 2013 não é de todo ruim. Mas o original ainda é insuperável.

E por hoje é só. Amanhã volto com mais.

Cheers!!!

4 comentários:

Adriano Istvan disse...

Excelente review!! Primeira vez comentando. Então vai ter um post por dia?? Hooray!!

Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...

Também senti com vontade de defender a Carrie quando vi o filme.

Cleirthom Oliveira disse...

Eu vi só o filme de 2003 e curti, fiquei com uma baita vontade de assistir o original que vc fez a crítica, Amer vc já fez crítica sobre o filme christine (áquele do carro possuído por uma alma maligna, ou sei lá o quê). Ótima crítica!

João Paulo disse...

Não sei se é mencionado no filme, mas no livro Carrie menstrua aos 17 anos por isso as colegas caçoam dela por que não entenderam que ela estava menstruando pela primeira vez.