segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Mês das Bruxas: 25 Clássicos do Terror - O Fantasma do Paraíso


Um belo dia, Brian De Palma entrou nos escritórios executivos da Fox... Provavelmente com um machado... E com a ideia para um filme.

... É... Foi isso...


Ele derrubou a porta de uma forma que deixaria Jack Nicholson orgulhoso, cravou o machado na mesa (matando assim a prostituta vietnamita que Rupert Murdoch guardava na gaveta) e fez sua proposta:

- QUERO DIRIGIR UMA NOVA VERSÃO DE O FANTASMA DA ÓPERA!
- Bem, acho que isso pode ser providenc...
- E QUERO MISTURÁ-LA COM FAUSTO!
- Silva?
- E COM O RETRATO DE DORIAN GREY!
- Claro, acho que isso pode funcio...
- E VAI SER EM VERSÃO DISCO!
- Tá bom! Eu te dou dinheiro pra fazer o filme, com duas condições: Primeiro, você para de gritar feito a louca dos gatos e segundo, você...
- GAAAH!
- ...
- Desculpa. Qual a segunda condição?
- Sempre que as pessoas pensarem nos grandes diretores de cinema dos anos 1970, ninguém vai se lembrar de você.
- FEITO!!!

E essa é a história de porque ninguém jamais fala em Brian de Palma, quando comenta dos grandes filmes desta época tão distante.

...

Ok, falemos de O Fantasma do Paraíso.

"Mas eu já disse: Eu não sou o Brian De Palma!"
"Conta essa pro juiz!"
"Conta essa pra Satã, isso sim!"

Nosso herói aqui é Winslow Leach (William Finley) um compositor com verdadeiro desprezo pela bosta que tornou-se a música de seu tempo (e escutando certas bandas de 1974, não é difícil entender porquê) que consegue chamar a atenção de um produtor chamado Swan (Paul Williams) que é um canalha, porque CLARO QUE ELE É UM CANALHA! ELE É PRODUTOR MUSICAL, MEU DEUS!

Swan acredita que a música de Leach é perfeita para a abertura de seu novo clube, o “Paraíso” (Heh! Heh! Olha o título do filme! Heh!) e passa a perna em Leach para conseguir as partituras originais que ele compôs. O rapaz faz tudo que pode para recuperá-las, inclusive ir até a casa de Swan, onde conhece Phoenix (Jessica Harper), uma garota que foi até lá para fazer teste como cantora.

Obviamente, os dois se adoram de imediato e tem início uma linda história de amor.

... HÁ HÁ! Não. Na verdade, Swan manda seus capangas darem uma surra em Leach e o incriminarem por porte de drogas. O compositor recebe prisão perpétua na penitenciária de Sing Sing, onde arrancam seus dentes e substituem por próteses de metal... Tudo em nome da ciência claro.

Em uma bela tarde de trabalho forçado, Leach escuta sua música no rádio, sendo cantada por uma das bandas comercialistas cagadas de seu tempo. Ele despiroca, foge da cadeia e vai até a Death Records (que pertence a Swan) para destruir todas as cópias do disco com sua canção antes que seja lançada. Infelizmente, nosso herói comete um erro e acaba com a cabeça presa em uma prensa de discos de vinil (que todos escutavam na época, não apenas os hipsters), o que destrói sua voz e deforma seu rosto.

Desiludido, implodido e mastigado, mas ainda vivo, Leach arruma um traje tétrico e uma máscara e decide aterrorizar o clube Paraíso, tornando-se assim, O FANTASMA DO PARAÍSO (HEH!!! HEH!!!)! E com o único objetivo de matar a todos que decidam cantar sua música. Infelizmente, ele é engambelado de novo por Swan, que o convence a escrever novas canções para Phoenix, por quem o compositor ainda é apaixonado, então temos amor, ódio, vingança e METÓÓÓÓÓÓL!!!

Aliás, (SPOILERS A SEGUIR) Swan fez um pacto com o diabo, é imortal e se delicia destruindo a vida de músicos jovens e sonhadores (ACABOU OS SPOILERS).

É uma doideira, e é espetacular.

"MEU DEUS, MINHA CABEÇA ESTÁ PRESA EM UMA PRENSA DE DISCOS!
QUAIS AS CHANCES DE UMA TRAGÉDIA TÃO IRÔNICA ACONTECER?"

Embora não seja um filme de terror propriamente dito, O Fantasma do Paraíso bebe de muitas fontes que tornaram-se sinônimas com este gênero.

A mais óbvia, claro, é O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux. O Fantasma no original, chama-se Erick, e ele apaixonou-se por uma cantora de ópera chamada Christine. Ele inicia atos de violência contra a casa de ópera onde ela se apresenta e exige o amor da moça em troca da não destruição do local.

Erick é apaixonado como um monstro trágico, capaz de atos indizíveis de violência, mas apenas porque a raiva é tudo que ele conhece. Por causa de sua aparência hedionda, ele nunca recebeu amor, nem mesmo de sua mãe. E o carinho de Christine é o que causa sua mudança no final da história.

Leach também é uma figura motivada pelo amor, não apenas por Phoenix, mas por sua música também. Ele não aceita que ninguém cante suas composições, exceto por ela, e tudo que ele faz para proteger sua arte, acaba também impulsionando a carreira do alvo de seu afeto. No fim, a mulher de seus sonhos e o trabalho de sua vida entrelaçam-se em uma espiral de amor que torna-se inseparável aos olhos do Fantasma.

A segunda inspiração vem através da obra O Retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde. Nela, o jovem e belo Grey tem um retrato seu, de corpo inteiro, pintado, e aos poucos é levado pelo estilo de vida hedonista da alta sociedade da época. Convencido de que beleza e a busca pelo prazer sexual são as únicas coisas de real valor no mundo, Dorian expressa o desejo de vender sua alma, para que o quadro envelheça em seu lugar. Após isso, o rapaz congela no tempo e passa a desfrutar de um estilo de vida totalmente amoral, enquanto a pintura registra a passagem do tempo e de cada um dos seus pecados.

No filme, este papel é preenchido por Swan. Em uma cena remanescente do romance, ele confessa em uma gravação de vídeo, que pretende se matar, pois não aceita a ideia de envelhecer (ignoremos que Paul Williams já tinha a maior cara de tiozinho da lotação quando fez este filme). O reflexo no espelho diante dele então lhe oferece a juventude eterna em troca de sua alma, e o produtor permanecerá intocado pelo tempo, enquanto mantiver a gravação desta “negociação” intacta.

Se me perguntarem, Swan é uma sátira bastante inteligente a imagem de um produtor musical... Ou ao menos, da ideia que a população em geral tem deste tipo de profissional na indústria da música: Como uma criatura que suga até o tutano dos ossos dos seus artistas, e os joga fora no momento que saem das paradas de sucessos.

Garanto que se pesquisarmos as carreiras de, oh, eu não sei, Phil Spector, e encontraremos um ou dois exemplos de artistas que se enquadram nesta descrição. Quando conhecemos o suficiente da indústria da música para sabermos o quanto ela é impiedosa, o simbolismo por trás de Swan só aceitar contratos assinados em sangue, torna-se muito claro.

"Ora, vamos lá. Eu não sou tão pior que o Simon Cowell."

A primeira vez que ouvi falar de O Fantasma do Paraíso, foi ao ver um vídeo que especulava se o personagem título havia sido a inspiração que levou George Lucas a criar Darth Vader. Afinal, ambos são vilões que escondem o rosto deformado atrás de uma máscara, se vestem de negro, e que precisam de equipamento eletrônico para poderem falar.

Sim, o Fantasma não pode falar normalmente, pois suas cordas vocais foram destruídas no acidente com a prensa. Desta forma, ele precisa de uma caixa de voz conectada a sua laringe para fazê-lo, porque a tecnologia de 1974 era avançada a este ponto.

Pessoalmente, eu duvido. A inspiração para a aparência de Vader foi a imagem dos guerreiros samurais (mais especificamente, os samurais dos filmes do Kurosawa). E a ideia de um personagem que usa uma máscara para esconder o rosto deformado, não é exatamente nova na ficção. Assim como vestir um vilão com roupas negras.

Mas O Fantasma do Paraíso inspirou a criação de outro vilão, só que vindo do extremo oriente do planeta.

Em 1989, o artista Kentaro Miura iniciou sua obra definitiva, chamada Berserk. Nela, ele narraria as aventuras de Guts (ou “Gatts”, dependendo da tradução), um guerreiro que iaja através de um mundo de fantasia medieval tomado por demônios e outras abominações. Brutal e aparentemente sem remorso, Guts extermina todos os monstros que encontra, na esperança de confrontar Griffith, seu antigo companheiro de guerra, que sacrificou todos os seus amigos em nome de sua ambição.

Quando em batalha, Griffith usa um elmo no formato de uma cabeça de falcão, o que deu a seu antigo grupo de mercenários o nome de “O Bando do Falcão”. O elmo em questão é praticamente igual a máscara usada por Winslow no filme.

Curiosamente, a relação entre Guts e Griffith também reflete o tipo de interação que podemos ver acontecer entre o Fantasma e Swan.

Guts é um homem bruto. Grande, musculoso e intimidador, que é recebido com medo e desprezo onde quer que vá. Em combate, Guts é feroz, deixa o ódio o consumir e ataca com uma violência capaz de intimidar até o mais antigo habitante do inferno. Quem o vê nesse estado, é incapaz de distinguí-lo dos demônios que enfrenta.

Ainda assim, ele é em seu âmago, um homem bom. Que embora não demonstre abertamente, está sempre disposto a ajudar e proteger aqueles que são mais fracos.

Grifitth é o contrário. Ele é belo, gracioso em batalha e possui um carisma magnético. As pessoas se apaixonam por ele e o idolatram assim que o conhecem, mas não sabe que ele as sacrificaria em um piscar de olhos, se isso for necessário para a realização de suas ambições.

Da mesma forma, temos Leach, que é assustador e monstruoso, mas que mesmo em sua fúria, age por amor, e Swan, o produtor musical adorado por todos, mas que é uma cria do demônio que literalmente rouba a alma daqueles a quem contrata.

Então, se você é fã de Berserk, dê um abraço em Brian De Palma. Sem ele, esta obra jamais teria nascido.

♪ Feel no shame about shape, weather changes their phrase
Even mother will show you another way 


O Fantasma do Paraíso é uma experiência estranha, mas incrível.

É um musical, mas também uma comédia e um filme de terror. Tudo embrulhado em uma deliciosa camada de nostalgia dos anos 1970.

E o mais importante: É muito divertido.

Eu recomendo.

Cheers!!!

7 comentários:

Walterlino disse...

Interessante. Finalmente entendi do que Os Simpsons na abertura do Gilhermo del Toro faziam referencia. Como sempre, um bom texto que me faz querer assistir mais alguma coisa. Valeu Amer.

Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...

Nunca ouvi falar desse filme, Mas parece que vale uma olhada.

Dan Bickle disse...

Achei que só eu tinha sacado a referencia em Bersek

J.J. disse...

Eu JURAVA que tinha sonhado com esse filme ! Boa lembrança Amer !

Adan Ribeiro disse...

Prazer, Bernie Rhodes do The Clash: empresário, produtor e demônio.

L disse...

Muito bom esse filme, a resenha ficou foda Amer, só faltou colocar uma foto do Beef rsrsrsrsrrsrsrrsrs

Leandro DM disse...

Ia falar a mesma coisa.