segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Mês das Bruxas: 25 Clássicos do Terror - Brinquedo Assassino


Vocês sabiam que o criador de Brinquedo Assassino se chama Don Mancini?

É isso mesmo, o sujeito tem nome de mafioso!

Imagino ele, no clube Bada-Bing, com Tony Soprano e os rapazes, sentado no canto escrevendo seu roteiro enquanto os outros planejam ir matar um rival ou qualquer outra coisa que os gangsters fazem.

Aí o Tony vira pra ele e pergunta: O que você tá fazendo aí?

E ele responde: “E... Eu tou escrevendo um roteiro, Tony.”

E o Tony retruca: “O que? Acha que virou o Spielberg, é? Seu viado!", antes de arrebentar a cabeça dele com um balde de metal... Porque o Tony tinha dessas.

Família Soprano era uma boa série.

Mas já divaguei demais. Falemos de Chucky, o boneco assassino.


Este belo jovem, com olhos azuis penetrantes

Numa noite fria de inverno (9 de novembro de 1988, a cena de abertura se passa na mesma data de lançamento americano do filme. Maluco, não?) o policial Mike Norris (Chris Sarandon) persegue o criminoso Charles Lee Ray (Brad Dourif) até uma loja de brinquedos. Os dois trocam tiros, e o meliante é ferido mortalmente.

Antes de ir empurrar margaridas, Ray se vê diante de um bonecão horroroso, da linha de brinquedos (fictícia) Good Guy. O sujeito realiza um ritual de magia negra de emergência e transfere sua alma para o brinquedo.

E também causa uma explosão, porque motivos.

A cena corta para a casa de Andy Barclay (Alex Vincent) e sua mãe Karen (Catherine Hicks). É o aniversário do menino, e ele quer um dos bonecos Good Guys, só que eles são caros demais para o orçamento da casa.

Mas mais tarde, a mãe de Andy encontra um mendigo vendendo o boneco a troco de banana. Ela o leva de presente para seu pimpolho e tudo parece bem... Até que sua melhor amiga é jogada do prédio enquanto servia de babá para Andy.

A polícia investiga o caso e acha que o menino é o assassino, mas Andy insiste que foi Chucky quem cometeu o crime. Ninguém acredita nele, e nós ficamos gritando com o filme, porque queremos que um bando de adultos acredite quando um garoto de seis anos fala que seu boneco borrachudo está vivo.

Eventualmente, Chucky descobre que precisa passar sua alma para o corpo de Andy, senão ficará preso ao boneco para sempre. Então começa um processo que se estenderia por mais meia dúzia de filmes.

Não que eu ache que o Chucky deva mudar. Nós o amamos exatamente como é.

Cheio de fúria assassina contra todos os Sarandons

Se há duas atuações que vendem o filme, são as de Alex Vincent e Brad Douriff.

Eu dificilmente me entusiasmo com atores e atrizes mirins, porque normalmente eles vêm em uma de duas variações. Na primeira eles são péssimos, e falam todas as suas frases com a emoção de uma lasanha. Se a criança tem um papel pequeno, tudo bem, mas quando ela é o foco de metade do filme (como o maldito Anakin em A Ameaça Fantasma), isso se torna um problema.

O segundo tipo é aquela criança que nada mais é que um adulto em miniatura. Como Dakota Fanning em... Todos os seus filmes de criança. Ela mais parece uma mulher de 30 anos que nunca cresceu do que uma menina. E claro que ela atua bem, mas eu consigo imaginá-la após uma cena, conversando com seus colegas sobre a Crise dos Mísseis de Cuba e o que isso significou para a política ocidental. E essa imagem me tira um pouco do filme.

Alex Vincent é o raro caso de guri que interpreta bem, mas que não deixou de ser criança por isso. Suas frases saem sempre com doçura e sinceridade, e conseguimos acreditar nele como um menino que simplesmente foi parar em uma situação fantástica e terrível.

Ajuda também que ele é fofo feito um botão de rosa, e dá vontade de apertar ele até explodir.

Exatamente o que eu falei acima

Quanto a Brad Dourif, eu sei que isso já foi dito um milhão de vezes, mas merece ser repetido: Nenhuma outra pessoa poderia ter dado vida a Chucky.

Não sei se vocês já viram alguma entrevista com Dourif, mas ele parece ser um sujeito muito inteligente, o tipo de cara que tem uma opinião sobre tudo. Dá vontade de chamar o cara pra uma cerveja e simplesmente ouvir o que ele tem a dizer sobre questões sociais. Um boa praça.

Embora tenha pouco tempo de tela como Charles Lee Ray, ele consegue passar uma energia totalmente contrária a sua. Ray é repulsivo, aquele sujeito que quando vemos no metrô, sabemos que é um problema.

Claro, o fato dele mexer com magia negra não ajuda o seu caso, mas vocês me entenderam.

Quando se transforma em Chucky, Dourif precisava passar toda a personalidade horrenda de Charles com a voz, e ele não fez feio. Ele alterna entre um tom mais “casual” e os hoje famosos gritos de Chucky. Era como se o corpo pequeno do boneco não pudesse conter todo o ódio da alma em seu interior, e este sentimento precisasse ser projetado para fora através da sua voz.

De fato, Dourif quase desmaiou ao gravar o grito de morte de Chucky, tamanho o esforço que fez para ter a inflexão desejada.

Isso se chama profissionalismo, queridos.

... Exatamente o que eu falei acima...

O roteiro passou por diversas mudanças, até se tornar o filme que todos conhecemos.

Na primeira versão, os bonecos Good Guys teriam pele de latex e um composto que simularia sangue. A ideia é que quando um dos bonecos “se machucasse”, as crianças poderiam encher o saco dos pais para comprar Band-Aids oficiais da série. Nessa história, Andy se cortaria e misturaria seu sangue com o do boneco, formando um “pacto de sangue”, e seria isso que lhe daria vida. Deste momento em diante, “Buddy” (o nome original do vilão) mataria a todos que de alguma forma se indispusessem com o garoto, como sua babá ou sua professora.

Mancini queria que o boneco representasse a raiva reprimida de Andy, que fora abandonado pelo pai e que mal via a mãe, que estava sempre presa no trabalho. O filme seria mais psicológico e deixaria o público incerto sobre quem estaria cometendo os assassinatos, Buddy ou Andy.

A versão final não nos dá a chance de criar esta dúvida, pois logo na abertura vemos Charles Lee Ray passar sua alma para o boneco. Mas outro tipo de suspense foi criado no processo, um que pode ser muito bem explicado pela “analogia da bomba”.

Alfred Hitchcock dizia que uma boa maneira de deixar a platéia aflita, é dar a elas um conhecimento que os personagens não tem. Por exemplo, duas pessoas estão sentadas à mesa, e há uma bomba debaixo dela. Nós sabemos que o explosivo está lá, mas os personagens não, e começamos a ficar aflitos, porque queremos que eles saiam dalí o quanto antes, pois estão correndo risco de vida... E os dois lá, papeando sobre quem foi o último músico que se apresentou no último programa do Chacrinha.

Algo similar acontece aqui. Chucky mata as pessoas, a polícia suspeita que Andy seja o culpado, mas nós sabemos quem foi de verdade. E ficamos ofendidos de ver que nem mesmo a mãe de Andy acredita nele, quando na verdade, nenhum de nós acreditaria se fosse confrontado com esta situação.

No fim das contas, não foi a ideia que Don Mancini queria filmar, mas deu certo da mesma forma. Pois quase duas décadas depois e ainda estamos falando de Chucky.

E Jennifer Tilly nem era parte da série ainda Se bem que
eu também aprecio uma MILF de vez em quando

Agora, quando eu era adolescente, eu tive um amigo que era um completo lunático. Do tipo que acha que atirar em bibliotecárias e deixá-las paraplégicas é um bom passatempo para o sábado a tarde. E este amigo tinha dois irmãos caçulas, que ele torturava diariamente, como todo irmão mais velho que se preze.

Uma bela noite, os meninos assistiram Brinquedo Assassino e ficaram completamente aterrorizados. Sabe como seu priminho passa a cuidar melhor dos brinquedos dele depois de assistir Toy Story? Parecido, só que ao contrário. Os moleques passaram a achar que os brinquedos criavam vida e matavam as pessoas a noite.

E por algum motivo, eles tinham um boneco do Senninha. Sabe o Senninha? Pois é, o Senninha.

Senninha este que passou a dormir em uma cadeira no corredor, toda noite, depois que os meninos viram a aventura de Chucky.

Uma noite, meu amigo estava entediado. Lembrem-se que na década de 1990 não havia internet, e não dava pra virar a madrugada assistindo pornografia de rinocerontes. Se quiséssemos ficar acordados, tínhamos de arranjar o que fazer.

Eis que meu amigo foi até o corredor, abriu a porta do quarto dos irmãos (que estavam no sétimo sono a esta altura), gritou: “OLHA O CHUCKY” e jogou o Senninha no beliche dos meninos, que gritaram com tanta força que causaram um abalo sísmico no Chile.

Conheci muita gente interessante nessa vida.

Mas ver uma criança dormir com um boneco tão horrível
é traumático pra qualquer um

O que resta para dizer? Bem, embora este não tenha sido o primeiro filme a mostrar um brinquedo que mata pessoas, ele ajudou a trazer este conceito para um ambiente contemporâneo com o qual todos estamos familiarizados.

E de quebra ganhamos Chucky, que é um dos monstros mais únicos e icônicos que o cinema já criou.

Assim, dê uma chance a Brinquedo Assassino se puder. Ele é muito melhor do que você se lembra, tenho certeza.

Cheers!!!

6 comentários:

Germano Pilar Ribeiro disse...

O Brad Dourif também faz o Grima no Senhor dos Anéis. É legal que ele consegue ser bem repulsivo e nojento, mas bem diferente do Charles Lee Ray. Realmente um ótimo ator. E que fim deu o menino Alex?

Amer H. disse...

Largou a atuação. Hoje trabalha como engenheiro elétrico.

Mas ele fez uma ponta na cena pós-créditos de A Maldição de Chucky.

Israel Damasceno disse...

Mas uma ótima postagem do Amer

Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...

Sem falar que o filme despertou o medo voluntário ou não a um personagem querido das crianças : O Fofao. Que, Não me lembro bem da história, mas parece que antes ou após o lançamento do brinquedo assassino, inventaram de lançar um boneco do fofao. Que numa coincidência desgraçada, lembrava o Chuck por crianças e adultos. Que numa geração onde se passava filme de terror à tarde, ficava fácil plantar o medo nas crianças num cinema em casa.

Hao Cinis disse...

Tinha até uma história de que o boneco do Fofão continha uma faca dentro. Minha irmã, com 6 anos na época, tinha um quando ouviu isso e dizia que o boneco levantava de noite e a ficava encarando. Ela lutou pra encontrar uma coleguinha que quisesse o boneco. Foi tenso.

Enfim, já vi filmes do Freddy e do Jason, mas, por incressa que parível, nunca tive estômago pra ver um do Chucky. Vai ver pq a ideia de um assassino em miniatura que pode ser comprado na Rihappy e guardado na estante até levantar de noite era muito macabra...

Azrael_I disse...

Eu tive um boneco do Fofão, mas foi bem antes de assistir Brinquedo Assassino (e continuações) e nunca soube da história da "faca" na época(não era uma faca, era apenas um pedaço de plástico que ajudava a dar sustentação pra cabeça). Ou seja, meu boneco felizmente não me deixou traumas de infância, exceto a própria feiúra, hehe.

Quanto ao filme, revi recentemente, e é incrível como ele envelheceu bem (exceto, na minha opinião, nas últimas partes; apesar de bem filmada, a ideia da cena pós-lareira (pra não dar spoilers) é meio tosca). Assino embaixo de tudo que o Amer falou, e destaco mais, a cena da revelação do Chucky para a mãe do Andy é a melhor parte do filme. Também vale destaque para a atuação do detetive, que não é presunçoso demais e não tenta ser o herói da história o tempo todo (ele é até meio que vilão, considerando o Andy culpado no início e na metade do filme).

Agora, um detalhe que o Amer poderia ter destacado é o outro brinquedo assassino do Andy: seu kit de marceneiro. O kit vinha com um martelo e pregos reais (e se me lembro bem, uma chave de fenda e uma serra); em tamanhos menores, verdade, mas o martelo é justamente a arma que o Chucky usa pra matar a amiga da mãe do Andy! Imagina o estrago que um garoto de seis anos poderia fazer nos próprios dedos ou nos amiguinhos, brincando com esse troço...