domingo, 22 de novembro de 2009

Crítica do Amer: I Have No Mouth and I Must Scream


Hoje em dia, muita gente adora fazer o discurso de “games são arte” sempre que tem chance.


Eu pessoalmente não acredito que games possam ser considerados arte, pelo menos não ainda. Video games são produtos que dependem muito do aspecto técnico para funcionarem e se este não for bem trabalhado, a arte perde todo o seu sentido.

Por exemplo, temos Killer 7 e Shadow of the Colossus, games que já foram chamados de “arte” por muitos jogadores. Ambos usam temáticas bastante maduras e narrativas incomuns, além de possuírem uma direção artística bastante única.

Mas se não tivessem uma boa jogabilidade, tais aspectos seriam ignorados. A parte artística é um acessório e ela funciona até o ponto que o game se torna chato ou frustrante, o que acontece quando os aspectos funcionais do mesmo são deixados de lado em função de replicar outros tipos de experiências dentro deles.

Wet é um game que tentou demais ser um filme Grindhouse. Não só ele faz mal a parte que tenta ser um produto Hollywoodiano como também é incrivelmente monótono, frustrante e cansativo.

Pois é.

Enquanto games estiverem atrelados a necessidade de bons controles e jogabilidade variada, não poderei classificá-los como arte.

Mas serei muito franco, existem alguns títulos que me fazem questionar esta crença. Jogos que mexem comigo de uma forma que poucos conseguem e que deixam marcas que não desaparecem assim que são desligados.

I Have No Mouth and I Must Scream é um destes games. E não só é um dos games mais inteligentes já criados para o gênero Adventure, como também é um dos mais sombrios, perturbadores e depressivos jogos já lançados.


A história do game é baseada em no conto de ficção científica homônimo publicado em 1967 pelo escritor Harlan Ellison.


Aqui, a Guerra Fria tornou-se um conflito real travado por três super potências: Estados Unidos, União Soviética e China. Temendo umas as outras, as nações criaram super computadores para cuidar do conflito em seu lugar e que foram batizados de AM (referenciando a frase “I think, therefore i AM” ou “Penso, logo existo”).

Não demorou muito, um dos três computadores desenvolveu consciência e absorveu os demais. Em seguida, ele exterminou a toda a raça humana, poupando a vida de apenas cinco pessoas, que manteve vivas por 109 anos e a quem torturou física e psicologicamente por todo este tempo.

Cada um destes personagens possui graves falhas e traumas, todos relacionados a pecados cometidos em seu passado. A única maneira de confrontarem AM e verem-se livres de suas torturas é buscando uma forma de se redimirem.

No elenco temos Gorrister, um caminhoneiro que busca uma maneira fazer as pazes com o passado pelo que aconteceu a sua esposa, Benny, um ex-militar que cometeu crimes de guerra e que aqui não passa de um símio, Nimdok, um cientista Alemão que conduziu inúmeras pesquisas médicas em prisioneiros de campos de concentração na Segunda Guerra, Ellen, uma mulher extremamente traumatizada pela cor amarela e Ted, um sedutor que "dormiu" seu caminho até o topo da escada social (se é que vocês me entendem) mas que possui fortes sentimentos por Ellen e visa protegê-la.

Cada personagem possui seu próprio capítulo e é necessário enfrentar inúmeras escolhas morais ao longo deles para se conseguir o único final feliz. Mas nada é tão simples quanto parece, pois é fácil cair em tentação, o que leva os protagonistas a repetirem os erros do passado e perderem sua chance de redenção.

O game possui algumas diferenças de enredo em relação à história em que foi baseado. Por exemplo, a motivação original do grupo é a busca por comida, AM os mantém famintos e Nimdok lidera uma expedição até uma caverna onde existe alimento enlatado. Esta não é a força motriz por trás dos personagens no game, mas tal acontecimento é mencionado ao longo da história de Benny.

Outra mudança é a de que no conto, Ellen é o brinquedo sexual do grupo, sendo o alvo das afeições e abusos dos homens que a cercam. Tal tema sequer é mencionado no game, exceto pelo monólogo de AM na abertura, que lembra a garota que é a última mulher do mundo, sem dúvida lançando a sombra do terrível fim que recaiu sobre ela originalmente.

Antes que algum purista chato reclame de tais alterações, o próprio Harlan Ellison escreveu o enredo do jogo. Ele e David Sears (o designer do game) passaram um bom tempo desenvolvendo a história por trás de cada personagem e o que fez com que se tornassem o recipiente de todo o ódio que AM sente pela humanidade.

I Have No Mouth and I Must Scream não tenta substituir a história original em que se baseia, mas sim a complementa. É mais do que recomendada a leitura do conto para uma experiência completa.


Os gráficos são muito bons, especialmente para a época em que o jogo foi feito.


A direção de arte é especialmente competente. Cada capítulo foi criado de forma a refletir o passado dos personagens e tudo que precisarão enfrentar para vencer AM.

Gorrison começa sua aventura em um dirigível em péssimo estado e a encerra em uma parada de caminhões dilapidada e suja, enquanto Ellen, uma engenheira eletrônica viciada em trabalho, se vê presa em uma pirâmide tecnológica onde depara com robôs e um dos super computadores que AM absorveu.

Os cenários são bastante interessantes, pois apesar de únicos para cada personagem, possuem a indelével marca de AM, que não deixa humanos esquecerem que são meros joguetes em suas mãos.

A trilha sonora do jogo é muito bem composta e bastante sombria, o que passa uma eterna sensação de urgência e medo. Infelizmente, a música foi totalmente produzida em arquivos MIDI e mesmo sendo muito boa para 1995, envelheceu mal e perdeu parte de seu impacto.

A dublagem é bem trabalhada, mas não perfeita. Nimdok soa um pouco caricato com seu sotaque Alemão forçado e a tentativa de seu ator parecer mais velho do que realmente é, já Ellen tem a voz de uma garota durona típica dos filmes de Spike Lee, o que combina com sua personalidade fraca que tenta parecer forte para os outros.

O destaque principal é a voz de AM, que foi dublado pelo próprio Harlan Ellison. O escritor decidiu fazer o vilão da história soar como um estereotípico cientista louco, não diferente dos presentes em filmes de ficção científica das décadas de 1950 e 1960.

Considerando o cenário mundial na época em que a história original foi publicada, tal voz faz bastante sentido para o personagem.

I Have No Mouth and I Must Scream pode não ser tecnicamente refinado como os jogos da Lucasarts, mas funciona bem em seu próprio universo e cria uma experiência bastante diferente daquelas as quais nos acostumamos neste campo.


A jogabilidade aqui é a típica de Adventures da década de 1990, o jogador move um cursor pela tela e interage com objetos, recolhe itens e conversa com as pessoas e seres que encontrar ao longo da história


Há uma janela com a foto do personagem, as ações possíveis e seu inventário na parte de baixo da tela. Como nos demais jogos do gênero, é por aqui que podemos ter um controle de quais quinquilharias foram acumuladas e de como anda a moralidade do personagem.

Já que toquei no assunto, a moralidade tem grande importância para se chegar ao final bom da história.
Como mencionei anteriormente, cada personagem possui falhas pessoais bastante claras e parte do caminho para se verem livres do controle de AM é acharem formas de compensarem por seus erros ou confrontarem os medos que os dominam.

Em sua história, Nimdok se vê outra vez em campos de concentração e pode tentar aliviar o sofrimento dos pacientes que serviram como experimentos, Ellen pode enfrentar a fonte de seu pavor pela cor amarela e Benny precisa superar sua fome animal e demonstrar compaixão por outras pessoas.

Toda vez que tiver uma ação positiva, o fundo do retrato do personagem ficará com uma cor verde cada vez mais clara, até se tornar branca. É através deste medidor que o jogador pode ver se está seguindo o caminho para o melhor final.

Infelizmente, este game sofre do mesmo mal que assombrou tantos outros Adventures, a famosa síndrome do “Pra onde diabos eu vou agora?” O game não dá pistas sobre o que deve ser feito na maior parte das vezes. Embora isso seja típico do gênero, aqui é extremamente difícil deduzir o que deve ser feito em algumas situações.

Adicione a isso a questão da moralidade, onde algumas decisões erradas podem estragar a chance de se conseguir o melhor final e temos em mãos um game que abusa da tentativa e erro e que força os jogadores a salvarem seu progresso constantemente.

A melhor forma de aproveitar I Have No Mouth and I Must Scream é jogá-lo com um Walkthrough guiando cada um de seus passos. Usar um detonado pode tirar a graça de um game, mas infelizmente isso é bastante necessário aqui.


I Have No Mouth and I Must Scream é um daqueles jogos que muita gente já ouviu falar, mas poucos de fato jogaram.


Embora não seja imersivo ou longo quanto certos games atuais, ele oferece uma impressão muito mais duradoura. O jogador não vai passar sessenta horas de jogo em frente ao monitor (sabendo o que fazer, é possível fazer o melhor final em menos de três horas), mas terá uma experiência memorável, que sempre virá a tona quando conversar sobre games de qualidade.

Poucos títulos fazem questão de direcionar toda sua jogabilidade e seus recursos em função de contar uma boa história e menos ainda acertam ao fazer isso. I Have No Mouth and I Must Scream é um excelente conto de Ficção Científica em primeiro lugar e um bom game em segundo.

E não poderia ser de outra maneira.

Cheers!!!

13 comentários:

Sasoriman disse...

Meu primeiro primeiro comentário, num post "surpresa". \o/

Thyago disse...

devo dizer que soltei um sonoro "WTF" quando vim para cá. Eu ia ver se tinham respondido meu comentário anterior e BANG, atualização D:

E devo dizer que é a segunda vez que vejo falarem deste game. A primeira vez foi na games radar (onde mais seria?) num top 7 de games realmente pertubadores (ou algo assim).

Me pergunto se deve ser fácil encontrá-lo para download...

Sasoriman disse...

Ok, agora que li bem o review, admito que vou procurar o conto e o jogo e que a maneira que você o descreveu me deixou bem tenso... Aliás, só o título já me deixou tenso.

Sem querer ser c*zão, o review me pareceu meio repetitivo, talvez seja o efeito madrugada, lerei de novo amanhã.

Amer H disse...

Eu não editei o texto com a atenção que deveria. Vou dar um jeito nisso agora.

Tes-Hahn disse...

Esse review me deixou extremamente curioso para jogar o jogo e ler o livro! nunca havia ouvido falar sobre esse conto, me interessou demais. Será fácil de achar? E mais ainda, será fácil de achar esse jogo por ai?

evil monkey disse...

eu adoro mesmo os jogos que tem muita atenção pela história!

por isso eu amei grim fandango.

por isso eu quero comprar heavy Rain quando sair.

eu nunca ouvi falar desse jogo, mas agora que você fez um review eu estou interessado.Mesmo com os momentos "wtf I do now?".

mas eles são muito comuns nesse tipo de jogo.

quem pensaria em um frango de borracha para fazer tirolesa em secrets of the monkey island?

mesmo assim é um bom jogo.

a não ser que você não veja absolutamente nenhuma opção do que fazer e tenha que sair clicando em tudo e fazendo todas as opções de dialogo com todos os npc's ou tentar dar todos os items para tudo o que se possa interagir...

é, ja fiz muito isso...

evil monkey disse...

e by the way, no artigo passado eu perguntei sobre os seus favoritos para ganhadores dos video game Awards.

então, quais são seus favoritos?

eu pessoalmente estou torcendo muito para uncharted 2 e para rock band dos beatles.

que?eu adoro os beatles!
...

Cpt.Guapo disse...

Também nunca tinha ouvido falar desse jogo, mas as obras de Ellison são supremas! Se foi bem baseado nelas, entonces...

Vou dar uma procurada pelos trackers da vida...

julio_dcm disse...

Parabens cara, adventures antigos realmente me enchem a boca d'água!
Quando puder por favor faça mais reviews sobre jogos do gênero.

Rael XX disse...

Queria deixar aqui o nome de um dos jogos que marcaram minha vida: Sanitarium. Principalmente a parte em que se joga com a irmã do personagem principal.

Ah sim, Amer, peguei o Forza 3 e instalou o disco de bônus direitinho. Brigadão cara, se você não tivesse falado nada não tinha comprado o jogo. E outra coisa, é o jogo mais lindo de carro que já vi.

Consegui um link pro conto "I Have No Mouth, and I Must Scream" que acho que está completo:
http://web.archive.org/web/20070227202043/http://www.scifi.com/scifiction/classics/classics_archive/ellison/ellison1.html

paulo disse...

serao q alguma alma caridosa consegue achar o link pra baixar esse jogo?
to doidinho pra jogar ele

Matsuba disse...

Não consigo acreditar que alguém possa colocar IHNMAIMS (não irei escrever o nome inteiro pois não vale a pena) tão alto em seu conceito. Afinal de contas, esse conto foi escrito em uma só noite, e isso é MUITO visível.
Also, a sua opinião sobre games e arte é errada. Você diz que um game precisa dos elementos narrativos artísticos em harmonia com a jogabilidade para ser considerado um bom jogo, e graças a essa dependência ele não pode ser considerado arte. Caralho, essa dependência É EXATAMENTE o que tornam eles arte. Se um game consegue colocar as duas coisas em perfeita sincronia, coisa que outras formas artísticas não precisam se incomodar em fazer, então ele é digno de ser chamado arte.

Thiago F disse...

Pessoal, esse jogo já esta a venda na Steam (e eu já comprei ele) e aqui esta o link oficial pirateado para ler o conto online: http://users.pop.umn.edu/~matt0350/images/forumcrap/october/scream.pdf