terça-feira, 14 de abril de 2015

Crítica do Amer: Cinquenta Tons de Cinza


Os Estados Unidos são mesmo a terra da oportunidade. Lá é o único país do mundo onde você pode ser um completo imprestável, e mesmo assim, tornar-se um milionário do dia para a noite se chamar a atenção o suficiente.

Foi o caso de E.L James, que decidiu um dia escrever um fanfic de Crepúsculo. Os fãs paquitas da saga de Cedrico e Bella logo devoraram as histórias escritas por James, e não demorou muito para que uma pessoa feita de dinheiro investisse na “obra” da moça e a lançasse no mercado literário.

Claro, mudando os nomes de Cedrico e Bella, para evitar processos judiciais.

Hoje, Cinquenta Tons de Cinza é um sucesso, e E.L James tem mais dinheiro do que eu ou você jamais veremos na vida.

E como sempre acontece nessas histórias de ascensão através do inaptidão, o livro foi adaptado para o cinema.

E é uma das coisas MAIS BLENORRAGICAMENTE CHATAS QUE EU JÁ ASSISTI.

Mas vamos por partes, sim?

Christian: Anna, meus gostos são muito peculiares.
Anna: Ah meu Deus, não me diga que você é Brony.

Creio que a maioria de vocês está familiarizada com o enredo desta desgraça, mas eu não seria um bom panda se não fizesse uma sinopse. Vamos a ela então.

Aqui conhecemos Anastasia Steele (Dakota Johnson), pão branco extraordinária, que estuda literatura inglesa, trabalha em uma loja de ferramentas e que não tem absolutamente nada que a destaque do resto do mundo.

Mas ela não seria uma boa Mary Sue se sua incompetência não a carregasse até o sucesso. Curiosamente, o mesmo que aconteceu com sua criadora.

Um belo dia, Anastasia foi entrevistar Christian Grey (Jamie Dornan), playboy, bilionário, gato e todas aquelas qualidades ridiculamente idealizadas que fizeram Cedrico Cullen se tornar o sonho de consumo de toda uma geração de adolescentes com hormônios em ebulição.

Por algum motivo inexplicável até para as mentes mais brilhantes do cosmo, Grey se interessa por Anastasia, e passa a persegui-la até que a menina ceda a seus avanços. Quando isso finalmente acontece, ele estabelece um contrato (não, sério), onde estipula os termos para que eles possam se envolver romanticamente.

E a partir daí, a jovem, pura e virginal Anastasia Steele, entra de cabeça em um “complexo” (atenção para as aspas) relacionamento com Grey. Onde ela conhece e se “apaixona (ó as aspas de novo) pelo “estranho” (mais uma vez) mundo do BDSM.

Hmmm, é.

Sabe quando você pega um pote de maionese quase vazio e raspa o fundinho dele com uma faca? Todos fizemos isso. Tentamos espalhar a maionese o máximo possível pelo pão para que rendesse, e quando comemos, mal pudemos sentir seu sabor.

O roteiro de Cinquenta Tons de Cinza é assim. Um fiapo de enredo esticado o máximo que pôde para preencher duas horas de duração. Todo resto é filler.

Se quiser filler, eu assisto Naruto. Muito obrigado.

Anna: Datte Bayo...

Quanto ao elenco, bem, eles fazem o possível com o material que receberam. Não que isso queira dizer muito.

Sabem Kamen Rider, Gokaiger, ou qualquer outra série de super-herói japonês? Sabem quando aparece uma criança tonta, que se torna o pivô da aventura do dia e que nunca mais será vista ou mencionada pelo resto da série? E que é interpretada por um pirralho com tanto carisma quanto um fígado?

Pois essa criança tonta tem mais desenvolvimento do que a maioria dos personagens de Cinquenta Tons de Cinza.

Anastasia é a Bella Swan 2.0. Ela não tem carisma, não é inteligente, não é engraçada, não leu As Crônicas de Fogo e Gelo, enfim. Ela não tem NENHUMA característica que a torne interessante. Mas devido crédito a quem merece, Dakota Johnson fez o máximo que pôde para torná-la cativante e teve sucesso considerável em sua missão. Ana é bem mais gostável do que Bella Swan.

Mas até aí, comer lixo atômico é preferível a atuação de Kristen Stewart.

Quanto a Jamie Dornan... Minha nossa, por onde começar?

Ok, vou começar pelo óbvio, ele não é nem de longe bonito o suficiente para interpretar o papel de um bilionário galante e irresistível. Quando olho pra Dornan, imagino aqueles universitários canalhas que invadem o diretório acadêmico da faculdade de letras e começam a tocar Legião Urbana no violão, pra tentarem parecer mais cultos e sofisticados do que são.

Não só Dornan não é bonito, como não tem carisma NENHUM. Ele não sorri, pouco muda de expressão e tenta perpetuamente passar um estoicismo forçado. Ele mais parece um adolescente querendo passar por fodão, do que um homem adulto seguro de si.

Acho que fiquei mal acostumado com Tony Stark, mas quando penso em um bilionário irresistível, me vem a mente a imagem dele. Um sujeito cretino, cheio de defeitos, mas com carisma e personalidade suficientes para conquistar qualquer um.

E senhoras, senhores... Jamie Dornan não é nenhum Robert Downey Jr.

Quanto ao resto do elenco, eles não servem pra nada. Se substituíssem Marcia Gay Harden e Luke Grimes por birutas de posto de gasolina, absolutamente ninguém perceberia a diferença.

Anastasia: Adorei seu irmão em The Walking Dead.
Christian: Aquele era outro Grimes.

Mas o que mais me incomodou no filme foi sua absoluta falta de consistência. A narrativa se contradiz o tempo inteiro.

Por exemplo, há uma cena em que Anastasia ta na balada, bebeu demais e o amigo que tem um crush óbvio por ela, tenta abraçá-la e beijá-la. O sujeito não é mostrado como ameaça, mas como um mero chato, que a garota poderia ter afastado sozinha com um mero empurrão. Eis que subitamente, Grey aparece e com um tranco joga o rapaz longe, enquanto grita: “NÃO QUER DIZER NÃO!”

Que legal! Um homem que respeita a mulher e sabe que não se deve invadir o espaço pessoal dela! E mais importante, que sabe tirar o time de campo quando recebe uma negativa!

... Exceto que na cena anterior, enquanto falava com Anastasia ao telefone, Grey EXIGIU saber onde ela estava, foi ao encontro dela na balada, mesmo ela deixando claro que não queria vê-lo, depois a levou até seu apartamento e trocou suas roupas (enquanto ela estava inconsciente), para que dormisse em sua cama... Ao seu lado... Sem consentimento.

Espera, o quê???

Mas calma, tem mais. Ao longo do filme, ele vende o carro dela SEM SUA PERMISSÃO e quando Anastasia atravessa o país pra visitar a mãe, Grey a segue, mesmo sabendo que ela precisava de um tempo longe dele.

Quando Christian Grey faz isso, é romântico. Mas quando eu faço, as garotas chamam a polícia. Ora, bolotas.

O mesmo acontece com Anastasia. Que em um momento é a fraca, tímida e insegura donzela, na cena seguinte está jogando com Grey “de igual para igual” e acertando termos no contrato que assinaram para suas relações sexuais, e minutos depois, ela volta a ser a menina sem sal e sem gosto de anteriormente. Nenhum desenvolvimento é permanente.

Aliás, o contrato... Oh, o contrato.

Cinquenta Tons de Cinza se esforça para tentar mostrar que Christian Grey é um cara bizarro, estranho e incapaz de ter um relacionamento saudável com outra pessoa. E isso se reflete no seu gosto por BDSM.

Agora, pra qualquer pessoa com a mente minimamente aberta, não há nada de estranho em BDSM. É só mais uma prática sexual, tão normal quanto o-bom-e-velho-papai-e-mamãe-entre-duas-pessoas-hétero-tementes-a-Deus.

Praticantes de BDSM são em sua maioria esmagadora, pessoas normais, e perfeitamente bem ajustadas na sociedade. Capazes de ter uma vida tão plena e produtiva quanto qualquer um.

Mas se seu único contato com BDSM é através deste filme, você jamais saberia disso. Sua única impressão sobre o assunto seria a de que só completos loucos tomam parte nele. O que me leva ao maldito contrato.

Grey nos diz que não é capaz de ter relacionamentos normais, então ele cria um contrato e trata sua experiência com Anastasia como um negócio, onde todas as partes decidem e concordam sobre o que será melhor para ambos. E este conceito idiota me tirou completamente da história.

Não tenho problemas em suspender a descrença. Mas o filme tenta me convencer que uma menina tímida e virgem, que jamais tinha se relacionado com um homem, aceita fazer um “contrato de perversões sexuais” com alguém que é pouco mais que um desconhecido. E isso é menos plausível que um episódio de Cavaleiros do Zodíaco.

Dito isso, só me resta falar sobre as tão comentadas cenas de sexo da película.

Elas são chatas.

Meu Deus, como as cenas de sexo são chatas. Eu desliguei meu cérebro totalmente nas duas últimas, pois estava mortalmente entediado enquanto elas aconteciam.

Dakota Johnson e Jamie Dornan tem ZERO química. Eles não combinam como casal e isso se torna mais evidente conforme o filme passa. Se você pegar dois bonecos Playmobil e bater um contra o outro enquanto filma, terá uma cena de sexo mais convincente.

E elas são ridiculamente longas. Eu assisti a versão sem cortes e ao menos nela, uma das cenas com Dakota e Dornan durou DEZ MINUTOS! DEZ MALDITOS MINUTOS QUE PARECIAM NÃO TER FIM!!!

Foi como assistir a luta entre Goku e Freeza de novo.

Christian: Sabia que o Goku fica Super Sayajin de cabelo azul no próximo filme?
Anastasia: Não vai ser mais ridículo que o Super Sayajin 4. Tenho certeza.

Eu tenho uma relação complicada com Crepúsculo. Tenho ódio de tudo que aquela série representa, mas consigo me divertir com ela, apenas com o humor involuntário que ela gera.

Aqui, nem o humor involuntário eu tive. Cinquenta Tons de Cinza é chato, raso, burro e disfarça tudo isso com uma falsa máscara de “pornô-chic”, mas não faz nada que a série Emanuelle já não tenha realizado décadas atrás.

Acho que o único motivo para uma obra tão ruim fazer sucesso, foi porque permitiu que as mulheres pudessem demonstrar abertamente a própria sexualidade. Milhões de garotas carregavam o livro por aí em público, sem vergonha de serem julgadas, pois sabiam que haviam muitas como elas que as apoiariam.

E querem saber? Isso é ótimo.

Eu só gostaria que essa liberação tivesse vindo através de uma obra um pouquinho melhor.

Cheers!!!

18 comentários:

nenhum disse...

E. L. James é uma imprestável, mas ela é inglesa e fez carreira por lá.

Lance Sonovavish disse...

Bom...some isso ao "E sua mãe tb" e o "azul é a cor mais quente" e temso a triologia dos pornos chatos.

Slade Cesar disse...

Esse Christian Grey com esse contrato... parece uma versão pervertida do Sheldon Cooper

P. H. G. F. disse...

nem pra bonhetar essa merda serve!
passo.

Unknown disse...

Mulheres carregarem um livro pornográfico por aí tudo bem. Mas quando vejo meus pornozão no celular dentro do ônibus o povo me olha feio

Rabs disse...

Estava com saudades do blog já :)
Sobre o filme, só mais uma amostra do poder do marketing. Esse filme foi sucesso total de bilheteria por puro marketing. Sem atrativos, sem conteúdo e com um conteúdo masturbatório pífio. Pior coisa que já vi desde "azul é a cor mais quente". A diferença é que esse foi sucesso de crítica... Gostaria de ver uma crítica sua sobre esse filme xD

Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leandro" Leon Belmont" Alves the devil summoner disse...

quando vi esse filme no cinema, do começo até a metade, o pessoal mais ria das bobagens da Anastácia, mas pararam de rir quando o Christian deu um "pití" só porque a mocinha iria visitar a mãe. e as cenas de putaria não eram lá grande coisa, e o pessoal ovacionava como se vissem um pornô da Sasha Grey ou da Jayden Cole no Vermelhotubo ou 15vídeos.

é o mesmo que se vê numa novela global na minha opinião.

e sobre o tema do filme, tem aquela coisa. digamos que o tiozinho da padaria queira (incentivado pelo filme ou livro) apimentar a relação com a patroa. e resolva chicotea-la no intercourse ou enfiar um controle de X360 nela...aí não pode. mas se fosse o Brad Pitt ou o Henry Canvil poderia? WHAT A FUCK????

podem ir em qualquer blog ou youtube sobre o filme e verão mulheres defendendo esse pensamento mesmo e que pobre merece a "Lei Maria da Penha" mesmo.

claro que não sou contra a mulher ter as fantasias pervertidas que quiser, mas assim também...

mas confio no que o Amer falou uma vez num dos posts do Crepusculo: "não acredito que um filme possa incentivar uma pessoa a agir como o heroí ou vilão do filme, mas cada película tem uma mensagem nele. e o que a pessoa constatou do longa metragem isso´pode ser benefíco ou não"

e pior que fez sucesso e vai ter continuação dessa história e como já sabemos, o terceiro filme vai ser dividido em dois, pelo que parece.

Allan de Souza disse...

Eu ainda acho que Emmanuelle No Espaço muito melhor que 50 tons de cinza

Richter disse...

Tanto tempo sem entrar no blog, e aqui estou eu com 3 textos novos pra ler! Os bons tempos de procrastinação voltaram!

Vitor Vallombroso disse...

Você critica, critica, critica o livro/filme e eu saiu daqui com vontade de ler/assistir.

Acho que me odeio.

Euclydes disse...

... "Grey a segue, mesmo sabendo que ela precisava de um tempo longe dele.

Quando Christian Grey faz isso, é romântico. Mas quando eu faço, as garotas chamam a polícia. Ora, bolotas." ...
kkk (sentiu a profundidade do meu comentário?)

Euclydes disse...

luta entre Goku e Freeza?
fiquei imaginando a cena no filme..
treme o lábio, sofre um pouco de parkinson... pensa oh meu deus que
Ki poderoso... treme mais um pouco
não é possível... treme mais um pouco, dá uma piscada do tipo não acredito... que Ki poderoso aí repete umas 30 vezes e passaram-se os 10 minutos do fime pornô-leve...
realmente Emmanuelle era melhor...

Titio Evans disse...

Eu já imaginava que esse filme fosse mais um fracasso, ainda mais quando via minhas colegas "modistas" falando nele

Natália Maria disse...

Olá!!

Li coisas que muitas pessoas comentaram por aí. O autor não combinou com o personagem, e não houve química entre o casal.

Não, eu não li e tampouco assisti ao filme, embora tenha dado uma espiada no livro e o tenha em e-book no meu e-reader (curiosidade saca?)

Gostei do que você falou no último parágrafo. Custava uma obra melhor ter feito sucesso antes disso. Se bem que deve ter feito só porque ela fazia fanfictions de crepúsculo antes. Enfim, não o li ainda porque não estou lá muito interessada (no momento) em ler sobre sadomasoquismo, até porque o primeiro livro erótico que eu li tratava desse assunto de uma maneira melhor.

Sabe qual a pior? O filme foi um sucesso e vai ter a segunda parte. Torçamos para que o último filme não seja dividido em duas partes... como vem acoontecendo com as trilogias adaptadas para o cinema ultimamente!

até mais

Anderson "ANDF" Ferreira disse...

Confesso que li um pouco deste texto sobre o 50 Tons.
Os anteriores sobre os filmes dos Cavaleiros e o desenho da Família Addams (e muitos outros), eu li por inteiro.

Imagina se você resenhasse os Ninfomaníaca 1 e 2... este blog se tornaria proibido pra menores, como o Puxas (do Sapão)! Hehe!!

Abraço!

Satã de Touca disse...

Eu gosto de Emanuelle...

Itzel Aguilar disse...

Eu acredito que o fracasso não é a palavra para descrever, mas uma verdadeira decepção. Recentemente, transmitida a programação HBO, para aqueles que querem ver e julgar por si mesmo. Para mim, parecia ruim.