Ok, o artigo de hoje não será tão dramático quanto o título faz parecer, mas eu queria usar a imagem acima e ela não teria o mesmo sentido se eu batizasse este texto como “uma análise do mercado atual de animação.”Mas enfim, qualquer um que freqüente o blog há algum tempo sabe que eu adoro desenhos animados.
O quanto eu adoro desenhos animados? Eu adoro pra cacete!
De fato, eu passo um bom desenho animado na frente de qualquer outra coisa, nunca assisti um episódio sequer de LOST (que eu sinceramente acho uma série super valorizada demais) mas tenho orgulho de dizer que assisti TODOS os episódios dos Simpsons feitos até hoje.
Sem brincadeira, eu vi tudo.
Então não deve ser surpresa pra vocês que meus canais favoritos sejam justamente os de animação. A minha televisão (quando não estou jogando nada) fica permanentemente ligada em algum lugar onde uma criatura de acetato esteja se movendo.
Mas há algum tempo eu tive uma epifânia.
Eu estava em casa, num Sábado à noite, zapeando canais enquanto enchia a cara de Strogonoff e Fanta Uva, quando de repente percebi que estava passando Hey Arnold na Nickelodeon.
Pra quem não está familiarizado, Hey Arnold é esse desenho aqui:
Pois bem, é um daqueles desenhos com a básica premissa de colocar crianças em situações do dia a dia com os devidos exageros que só podem existir em uma série animada. As crianças se enfiam em alguma enrascada, saem dela e ao fim do dia aprenderam algo valioso sobre sí mesmas ou sobre o mundo.
Não é uma premissa zero quilômetro, mas como eu sempre digo: não importa se a idéia é um clichê, o que importa é sua execução.
Histórias sobre pessoas presas em ilhas existem desde sempre, mas LOST fez de um jeito diferente e é por isso que você gosta tanto desta série.
Mas enfim, abri um sorriso, pois fazia MUITO tempo que eu não assistia Hey Arnold, de fato, eu ainda fazia cursinho na época em que sentei pra ver este desenho pela última vez.
Então meditei sobre o ocorrido. A Nickelodeon não exibe desenhos a noite, reservando este horário da programação para Os Monstros, A Feiticeira e outras séries da época em que o mundo era em preto e branco. Acreditei que a exibição súbita de Hey Arnold era um tapa buraco de última hora.
Exceto que em seguida passou Rocket Power.
Então percebi que ao invés de exibir seriados do tempo em que os bichos falavam, a Nickelodeon decidiu guardar o horário dos fins de semana a noite para passar alguns de seus clássicos desenhos da década de 1990.
Que glória!
De repente eu podia assistir não apenas Hey Arnold, mas A Vida Moderna de Rocko, Invasor Zim (que só aprendi a gostar depois de velho), Ren & Stimpy e o já mencionado Rocket Power.
Curioso com a grade de programação, chequei até que horas tais desenhos seriam exibidos e vi que As Told by Ginger voltaria a ser exibido as 5:30 da manhã!
Diabos! O Batman passa a noite em claro, eu também posso.
Pra quem não sabe, Ginger é este desenho:
E resumindo monstruosamente, é uma história de amadurecimento que lida com diversos problemas do crescimento de uma forma extremamente madura para um desenho animado.
Por exemplo, Ginger (a ruivinha que está ao meio) é filha de pais separados e embora ela tente manter seu pai dentro da família, seu irmão caçula Carl tem ódio do velho.
E não falo daquele ódio de anime do tipo: “Meu pai me abandonou e hoje me obriga a pilotar um robô gigante, além de que ele clonou minha mãe em uma porrada de meninas depressivas por quem sinto tesão! Odeio ele e vou bater uma punheta em cima da Asuka enquanto ela está em coma!”
Não, este tipo de ódio só é possível em um país onde robôs gigantes tem desejos sexuais reprimidos.
O irmão da Ginger tem um ódio que vem da mágoa por se sentir abandonado pelo pai, que deixou a família pouco depois dele ter nascido e nunca esteve presente em sua vida até ele ficar velho demais pra quere-lo por perto.
De fato, em um episódio ele chama o novo namorado de sua mãe de “pai” bem na frente do seu pai de verdade, só pra deixar bem claro o que sente.
Heavy Metal, heim? One Tree Hill, nem O.C, nem nenhuma dessas séries adolescentes de merda tem uma carga emocional tão forte.
De fato, As Told By Ginger foi indicado a vários Emmy’s por episódios que tratavam de forma bem madura de problemas como angústia adolescente ou das já mencionadas questões de relacionamento familiar.
Então, pode ter sido o fato de que eu estava acordado as cinco da manhã, mas algo me ocorreu enquanto eu revia Ginger após cinco anos: porque estou virando a noite pra assistir a este desenho? Por que ele não passa na grade de programação normal?
Simples, porque os dias de semana da Nickelodeon exibem coisas como isso:
A Nickelodeon tem desenhos maravilhosos, capazes de deixar inúmeras séries “adultas” no chinelo em termos de maturidade e inteligência... e somos obrigados a agüentar uma programação cheia de seriados que tentam fazer comédia pra crianças?
Você sabe o que é “comédia infantil”, é um programa escrito por adultos que acham que sabem o que uma criança considera divertido. Eles enchem uma série com um humor extremamente idiota e empurram garganta abaixo das crianças.
A garotada não tem muita escolha exceto aceitar estes seriados, especialmente porque seus pais devem aprovar o gosto por programas com pessoas “reais” muito mais do que o por desenhos.
Vocês sabem como é, muitos pais adoram transformar seus filhos em adultos em miniatura e nada é mais imaturo que assistir desenho animado.
Ok, vou admitir que Drake & Josh é bastante engraçado, mas é porque a série não era escrita pra ser uma "comédia infantil" mas simplesmente uma comédia, além de que contava com um bom elenco.
ICarly... não sério... é pra acreditar que a Miranda Cosgrove é uma maluquinha adorável e não uma patricinha grotesca como aquelas que encontramos aos montes em nossas salas de aula e shopping centers?
Alguém que é maluco e espontâneo morderia um CD assim?
Miranda Cosgrove, você tem tanto talento quanto uma craca!!!
Quando escrevi isso em um fórum de animação gringo, o povo me aplaudiu. Não estou sozinho em minha luta!
Mas ICarly não é o pior. A Nickelodeon ainda exibe Zoey 101, série protagonizada pela irmã vagabunda da Britney Spears que engravidou aos dezesseis anos e saiu dizendo que isso era OK, mesmo sabendo que tem uma base de fãs infantis IMENSA.
Isso aí, meninas de nove anos! Promiscuidade é tudo de bom e engravidar aos dezesseis anos é coisa que as BFF's compartilham! Viva!!!
De repente, as lições de moral do He-Man na década de 1980 não parecem mais tão ruins, não é verdade?
E claro, não posso esquecer de Isa TKM.
Basicamente, é uma mistura Chilena de Carrossel com Malhação e o resultado é tão bom quanto vocês podem imaginar.
Admito que as atrizes da novela são exageradamente lindas, por exemplo...
O que me deixa feliz é saber que esta garota já deve ter uns vinte e dois anos e segue a lei de Luke Perry: “Você pode interpretar um adolescente até os 36 anos, depois precisa começar a interpretar jovens adultos ou virar dublador caso se torne muito feio e acabado.”
Desta forma, não me sinto um pedófilo por achá-la linda quando interpreta uma personagem que está na quinta série...ou sei lá em qual ano ela está.
Enfim, fico puto por perceber que aos poucos a Nickelodeon limou os desenhos animados de sua programação e os substituiu por séries adolescentes que parecem ser escritas e produzidas por pessoas que sofreram dano cerebral.
Reconheço que tais séries são uma benção para os donos do canal, pois com certeza custam muito menos para serem feitas que um desenho animado.
Por exemplo, manter Tom Kenny fazendo a voz do Bob Esponja deve custar muito mais que manter Miranda Cosgrove no papel principal de ICarly.
Então algum cético diz: “Ora Heimstall, você é louco? Nunca que um mero dublador custaria mais que um ator de verdade! Rio de sua cara, pois sou um gênio, desenho animado é doentil e luta livre é marmelada!”
Bom, um dublador não custa caro aqui no Brasil, mas lá fora o papo é outro.
Pra começo de conversa, os dubladores nos Estados Unidos são chamados de “Voice Actors” que traduzido literalmente significa “atorez de voz.”
Em outras palavras, Tom Kenny é reconhecido tanto quanto Tom Cruise lá fora. Ambos são profissionais e colegas e tenho certeza que caso se conhecessem, Tom Cruise ficaria maravilhado de finalmente estar conversando com “o cara que dubla o desenho animado que seus filhos adoram.”
Aqui os dubladores não são respeitados porque demoraram muitas décadas pra começarem a agir como profissionais. Claro que o pessoal que dublava desenhos na década de 1980 era maravilhoso (troco cinco Guillerme Briggs por um Newton da Matta em qualquer dia da semana), mas a dublagem das séries e desenhos era levada a sério por todos menos pelos profissionais que as faziam.
Lembra quando mudaram a voz de todo o elenco dos Simpsons? E lembram como os coadjuvantes de Cavaleiros do Zodíaco mudavam de voz quase que diariamente?
E o Toguro teve três vozes, lembra disso? Não chamavam o dublador oficial dele caso o personagem tivesse menos de dez falas em um episódio.
Pois é, demoraram pra se profissionalizar e agora tem de correr atrás do prejuízo.
Mas estou divagando. O negócio é que se Miranda Cosgrove decidir bancar a diva e exigir um salário melhor pelo que faz, a Nicklelodeon simplesmente a chuta, vai até o armário onde guarda adolescentes com personalidades intercambiáveis e lança uma série nova chamada “IJenna” ou “IBrianna.”
E Miranda Cosgrove vai amargar uma “carreira” típica de celebridades falidas Norte Americanas, inaugurando super mercados, apresentando Telethons e aparecendo em Reality Shows da VH1 que colocam seres dessa classe social em situações esdrúxulas.
Se Tom Kenny resolver sair de Bob Esponja... QUE DEUS TENHA PIEDADE DE TODOS NÓS!!!
Você acha que os dubladores Americanos dos Simpsons ganham um milhão de dólares por episódio por quê?
Tem mais, fazer uma série que se passe eternamente em quatro cenários com certeza custa muito mais barato que fazer um desenho.
A medida que a animação em 3D fica mais barata, a animação em 2D se torna cada vez mais cara. Eu tenho certeza que os donos da Nickelodeon estavam arrancando os cabelos na hora de preencher os cheques para produzir ISSO:
Por que vocês acham que a terceira temporada demorou tanto pra sair?
Já falei muito de Avatar em outro artigo e não vou elaborar mais, mas é óbvio que é uma série cuja sobra da produção era mais que o suficiente para contratar o Mercenário para matar todo o elenco de ICarly.
Ó doce mundo de ilusão...
Então você diz: “Baldur, você tá exagerando! Só porque a Nickelodeon fez essa cagada com a programação não quer dizer que os desenhos animados estão perdendo seu espaço!”
Não? Pois eu pergunto, você se lembra do Boomerang, aquele canal irmão do Cartoon Network que exibia desenhos clássicos e tinha um logotipo assim:
E que tinha uma vinheta linda com crianças vestidas como adultos paradas com olhar estupefato em frente as tevês que exibiam desenhos antigos e que diziam ao final: “Boomerang: sua infância de volta.”
Lembra?
Pois é, e o que o Boomerang exibe hoje? Novelas adolescentes como Meninas Sereias, Dance Dance Dance (que pra mim só não consegue ser uma tragédia pior que Chernobyl) e Bratz.
Sim, Bratz, aquele desenho que ensina que as meninas devem crescer para serem vagabundas consumistas!
E Orson Welles teve a pachorra de criticar Transformers por ser um "desenho sobre brinquedos fazendo coisas horríveis com outros brinquedos!"
Mas claro, sempre temos o Cartoon Network! O melhor lugar para Cartoons, certo?
Você já viu o filme Live Action de Ben 10?
Eu gostava tanto desse desenho... eles tinham que transformar em filme e colocar o Homem de Seis Milhões de Dólares pra fazer o vovô Max.
Sim, é o Lee Majors, pode checar.
Aliás, está pra estrear (ou já estreou, não sei ao certo) um canal chamado CN Real nos Estados Unidos... um Cartoon Network que só exibe proogramação em Live Action.
Alguém precisa explicar pra esse povo o que “Cartoon” significa.
E antes de concluir o texto, vou colocar uma imagem dos Rugrats, por nenhuma razão exceto que eu adoro Rugrats.
Ver que os desenhos animados estão sendo sistematicamente substituídos por seriados adolescentes ruins me dói um bocado. Eu cresci devorando desenhos animados como um garoto gordo devora bolacha escondido.
O que é uma analogia conveniente, porque sempre fui um gorducho devorador de bolachas. Mas essa não é a questão.
Eu não tinha muitos amigos na infância e passava boa parte do tempo sozinho. Minha mãe trabalhava quase o dia inteiro, meu irmão tinha a vida dele pra cuidar (sempre fomos antagonicamente diferentes em nossos pontos de vista) e minha avó, apesar de me fazer bastante companhia, também tinha seus afazeres pra cuidar.
Não me entendam mal, eu era um moleque incrivelmente chato, o que sem dúvida não ajudava na questão de fazer amigos, mas eu compensava minha solidão devorando desenhos conforme eles eram exibidos na tevê.
Minha vida pode ser definida por uma linha do tempo que começa com He-Man e Thundercats, passa por Animaniacs e Batman do Futuro e chega a contemporaneidade, com Transformers Animated e... só.
E sinto pena da molecada de hoje por que aos poucos perdem a oportunidade de ter uma infância como a minha.
Não vou dizer que os desenhos oitentistas eram melhores que os atuais, de jeito nenhum. Transformers da década de 1980 só são legais pelo fator nostalgia, porque fora isso, o desenho é uma diarréia relâmpago universal.
Transformers Animated é infinitamente superior e qualquer um que discorde é um fode-tio fanático, trans-puta de merda! Vocês me dão nojo, seus desgraçados!
Enfim, os desenhos da minha infância não são melhores que os de hoje, mas as oportunidades eram. Raios, eu podia ficar o dia inteiro assistindo desenhos animados quando entrava em férias, mas a molecada hoje em dia com três canais de desenhos em casa, tem cada vez menos coisa pra ver.
Entendo que é preciso renovar a programação e criar novos produtos, mas o dia tem vinte e quatro horas, o que é mais do que o suficiente para acomodar ICarly e Os Thornberries.
O pior é que a grande maioria destas séries que tanto adoro não saíram em DVD no Brasil. Se um dia eu quiser que meus filhos assistam Os Thornberries (que é uma série maravilhosa, diga-se de passagem) eles vão ter de aprender Inglês pra ver pela internet ou madrugar no Sábado e Domingo, pois passa antes de Ginger.
Mesmo Meninas Super Poderosas, Laboratório de Dexter e outros Cartoon Cartoons clássicos só são exibidos em horários proibitivos. Por que ao invés de reprisarem Naruto sete vezes por dia, o CN não redistribui os horários de forma que acomodem seus desenhos clássicos, Bakugan (Argh) e os produtos novos?
A Nickelodeon também podia fazer isso. É cada vez mais difícil localizar Bob Esponja na programação do canal, que transborda Miranda Cosgrove e a irmã cheia de gonorréia da Britney.
Claro que eu sempre posso procurar estes desenhos que tanto amo pela internet. Já peguei algumas séries inteiras e pretendo ir atrás de mais algumas.
Aliás, coisa que eu não precisaria fazer se as ditas séries fossem lançadas corretamente em DVD no Brasil. Como isso não acontece, o deus da Internet é meu pastor.
Mas a net deveria ser apenas uma solução para isso e não a única.
É...
Enfim, era tudo que eu queria dizer. Lamento se você veio aqui procurando material cômico e deu de cara com um desabafo, mas eu precisava dizer isso.
E sei que muitos de vocês sentem o mesmo que eu, gostaria que comentassem a respeito.
Por hoje é só, semana que vem: Mês das Bruxas.
Acho que o primeiro artigo de Outubro vai arrepiar a nuca de vocês.
Não, não é sobre Enigma de Outro Mundo.
Cheers!



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5° Lugar: Skies of Arcadia
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