segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crítica do Amer: Caça-Fantasmas


Muito bem, falemos de Caça-Fantasmas, o filme mais politicamente divisivo do ano.

Isso soa meio estúpido quando falamos em voz alta, não? Um filme sobre garotas que caçam fantasmas foi uma das coisas mais politicamente divisivas de 2016.

Pois é...

Mas bem, agora que a poeira baixou, me parece um bom momento para escrever minha opinião sobre este longa.

Resumindo, é “meh”.

Apenas “meh”.

Atenção: O artigo a seguir contém spoilers, porque eu sou um misantropo que odeia você, sua família e tudo que ela representa.

Ódio! Miséria! Destruição! CÉREBRODEEINSTEIN!!!

A história começa com Erin (Kristen Wiig), uma professora universitária que está ansiosa por uma promoção que irá trazer mais estabilidade em sua carreira. Tudo parece correr bem, até que um dia ela é contatada por um velho farelento cuja casa está sofrendo de um leve caso de assombração.

E por que raios o velho procurou uma respeitada professora do meio acadêmico pra se livrar dos mortos em seu porão? Porque anos antes, Erin escreveu um livro sobre o assunto. Livro que foi publicado sem autorização por sua velha amiga Abby (Melissa McCarthy), que continua correndo atrás do paranormal, ao invés de arrumar um emprego sério como testadora de laxantes ou jornalista de games.

Erin vai atrás da amiga e a pede para tirar o livro da Amazon, pois isso pode ameaçar sua carreira acadêmica. Abby concorda, contanto que ela a acompanhe na investigação da casa do velho farelento. Incapaz de dizer não a uma péssima ideia, a professora aceita.

Lá, ela é vomitada por uma assombração, Abby filma tudo e posta no Youtube, o que faz Erin perder o emprego. A professora então decide ir trabalhar com a amiga, aparentemente sem ligar que esta lhe custou um trabalho com alto salário em uma universidade prestigiada, apenas porque queria ser mais famosa que o Markiplier.

Assim, Erin, Abby e a cientista maluca residente, Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) fundam uma agência de investigação paranormal, porque... Ora, e por que não? Em seguida elas contratam Patty Tolan (Leslie Jones) pelos mesmos motivos de “por que não?” E contratam também o Thor (Chris Hemsworth) porque o filme precisa de um cara lindo.

Sem que soubessem, Neil Casey (Rowan North), um paranormal que sofreu bullying a vida inteira, arquitetava um plano para romper a barreira entre o nosso mundo e o dos fantasmas, e assim destruir a humanidade.

E... É isso.

Honestamente, não é um roteiro ruim. É extremamente simples, mas perfeitamente adequado para um blockbuster de verão. E se formos completamente honestos, o filme original também possuía um enredo sem grandes pretensões, que focava-se em um grupo de amigos tentando tocar um negócio.

Três coisas tornaram Os Caça-Fantasmas (o de 1984) um clássico da comédia: Os diálogos brilhantes, a química entre os quatro protagonistas e a direção impecável.

E é a falta de todos estes elementos que prejudica a nova versão.

Apesar de tudo, eu ainda pegava as quatro.
Ok, pegava três das quatro.

Um dos maiores problemas do filme é como as personagens foram desenvolvidas, porque bem... Elas simplesmente não foram.

No original, cada personagem tem sua função. Peter Venkman (Bill Murray) é um pilantra mulherengo, mas que no fim das contas tem um bom coração, Ray Stantz (Dan Aykroyd) é um apaixonado por ocultismo que mostra uma empolgação quase infantil pelo trabalho, Egon Spengler (Harold Ramis) é um gênio capaz de construir equipamento que aprisiona fantasmas, mas que não saberia manter uma conversação normal nem que sua vida dependesse disso, e Winston Zeddemore (Ernie Hudson) é o sujeito comum que caiu de para-quedas no meio dessa bagunça e que ajuda seus companheiros cientistas a manterem os pés no chão. Estas quatro personalidades diametralmente opostas se complementam, e geram uma química como poucas do cinema.

Aqui, as quatro personagens são “mulher”. Elas são completamente intercambiáveis, com praticamente nada que as torne únicas, e o mais frustrante é que temos vislumbres de personalidades que jamais são apropriadamente desenvolvidos.

No começo da história, Erin é a profissional séria, enquanto Abby é tão focada em si mesma que acaba sendo meio broaca com quem não é parte de seu trabalho. O ideal seria trabalhar o relacionamento destas personagens, mostrar a animosidade entre elas (Erin porque Abby lhe custou a carreira, e Abby porque sente que foi abandonada por Erin), mas também os motivos que as levaram a ser amigas, o que faria o público torcer para que se reconciliassem até o fim do filme.

Não é o que acontece. Erin e Abby tem uma leve rusga quando se reencontram, mas isso logo passa e a relação das duas se torna mais sem graça que lingerie bege.

Holtzmann tecnicamente deveria ser o Egon do grupo, estranha e pouco sociável, mas ela é tão extrovertida quanto as outras garotas. De fato, a cena onde ela tenta fazer um brinde as amigas e engasga em suas palavras, como se tivesse pavor de falar em público, destoa completamente do que nos foi mostrado dela no resto do filme.

E Patty, que supostamente é a malandrona que mantém as demais conectadas com a realidade, não tem muita função aqui, porque suas amigas são pessoas totalmente normais, apenas com um gosto pela ciência e o oculto. No fim das contas, a personagem de Leslie Jones torna-se um mero estereótipo racial.

Mas o membro mais mal aproveitado do elenco é sem sombra de dúvida o vilão da história.

Rowan North interpreta um sujeito que pode ver fantasmas, acabou excluído da sociedade por causa disso, e em um triste caso de profecia autorrealizada, tornou-se o monstro que todos temiam que fosse. North poderia ser um personagem trágico, que viu apenas o pior na humanidade e ficou amargo por conta disso, mas mais uma vez, temos uma ideia que acabou não sendo desenvolvida.

Ou melhor dizendo, o pouco desenvolvimento é jogado fora em nome de comédia ruim. Na cena em que Abby tenta convencer o vilão a se redimir, o que poderia ser uma cena capaz de emocionar o público, se perde em meio a uma sucessão de piadas sem graça que vão do nada a lugar nenhum.

E este é outro problema do filme. A comédia simplesmente não funciona.

Visto aqui: As buscas incessantes por uma boa piada.

Comédia é uma ciência exata. Uma piada depende de muitos elementos para funcionar, como dicotomia, reação, inflexão e timing. Se estes elementos forem aplicados da forma errada, o humor simplesmente não acontece.

E o número de piadas que dão errado neste filme chega a ser enfurecedor.

Por exemplo, após encontrarem a primeira fantasma (aquela que vomita em Erin no trailer) Abby comenta o quanto a aparição era linda. Sem perder um segundo, Holtzmann completa dizendo: “e ela continuou linda mesmo após deslocar a mandíbula pra projetar um jato de ectoplasma”. McKinnon diz esta fala sorrindo, como se achasse graça em toda a situação, e a piada simplesmente não funciona. Se ela tivesse falado com uma inflexão totalmente séria (como Egon faria) ela criaria uma dicotomia ao relatar impassivelmente a situação estapafúrdia que presenciara.

Este tipo de situação se repete diversas vezes ao longo do filme. Temos o momento perfeito para comédia, e a falta de um diálogo apropriado, a inflexão errada de uma das atrizes, ou a reação inapropriada, simplesmente destroem qualquer tentativa de se criar humor.

Sinceramente, não culpo as garotas. McCarthy, Wiig, McKinnan e Jones são ótimas comediantes, que já demonstraram talento para o humor inúmeras vezes ao longo de suas carreiras. Se há um culpado por este filme ter saído como saiu, é ninguém menos que o diretor, Paul Feig.

Após um certo momento, fica muito óbvio que grande parte de Caça-Fantasmas foi feito na base do improviso. A impressão que tenho é que Feig deixava as câmeras rodando e mandava as meninas improvisarem suas falas, enquanto ia tomar um café aguado caríssimo no Starbucks.

O caso é que improviso é um estilo DIFICÍLIMO de comédia, que muito pouca gente é capaz de dominar. Apesar de todo talento das garotas, elas são artistas que dependem de um roteiro pra conseguirem trabalhar, e sem isso, temos uma sucessão de cenas completamente desprovidas de humor e que vão do nada a lugar nenhum.

E infelizmente Caça-Fantasmas tinha potencial, pois existem piadas genuinamente engraçadas, como o momento em que o Geleia rouba o Ecto-1 e sai pra farra com um grupo de espíritos, ou quando Abby arremessa uma granada pro alto e dramaticamente tenta rebatê-la como uma bola de baseball, apenas para errar e vê-la cair no chão.

Pra completar, o filme simplesmente não sabe o que quer ser. Em alguns momentos temos humor extremamente grosseiro, como a piada sobre “queefing” (basicamente, “peidar pela vagina”) e em outros temos um humor ingênuo, como o personagem de Chris Hemsworth que cobre os olhos sempre que escuta um barulho alto.

Esta é uma comédia pra toda a família ou pro público engolidor de fezes que curte filmes do Adam Sandler?

Quem é você, Caça-Fantasmas?

Não tente me distrair com sua deliciosidade, senhor Hemsworth.
Responda minha pergunta.

Considerando tudo, qual seria a melhor maneira de fazer esta produção funcionar? Simples, como um “soft reboot”. Um filme onde os velhos heróis passam a tocha para os novos.

Isso, exatamente como Star Wars: O Despertar da Força.

O longa nem precisaria desviar muito do roteiro já existente. Bastava mostrar Abby como uma aficionada pelas aventuras dos Caça-Fantasmas originais, que mantém contato pela internet com Ray Stantz, e que eventualmente teria acesso a toda tecnologia que foi usada nos eventos dos dois primeiros filmes.

Após o primeiro trabalho usando o equipamento antigo, Holtzmann poderia decidir que ele é “ineficaz”, e então acharia maneiras de atualizar os feixes de prótons e desenvolver novas armas para a equipe. Nas cenas finais do novo longa, vemos que as garotas tem armas que destroem a forma física dos fantasmas, isso poderia ter sido desenvolvido com base em anotações deixadas pelo Egon.

E acredito que nem mesmo Bill Murray (que sofreu uma ameaça de processo da Sony caso não aceitasse participar do reboot) teria problemas em fazer uma ponta na produção só pra dar sua benção as novas caçadoras. Principalmente por que isso significaria se livrar da franquia para sempre.

Bill Murray parece um pão sírio que foi largado na chuva.

Só precisa de tomate, alface e frango.

A esta altura, todos sabem que o filme foi um fracasso de bilheteria, arrecadando US$ 220 milhões, após custar US$ 300 milhões (com a produção e o marketing) para a Sony.

Então... O que aconteceu?

Bem, a verdade é que o grande público está simplesmente exausto de remakes e reboots. Quantos destes filmes tivemos na última década?

De cabeça, me lembro de RoboCop, O Vingador do Futuro, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Conan o Bárbaro, A Morte do Demônio, Fúria de Titãs, Arthur o Milionário, Footloose, A Hora do Espanto, Caçadores de Emoções, Halloween, Carrie a Estranha, A Última Casa, O Dia que a Terra Parou, Ben-Hur, O Espetacular Homem-Aranha, Quarteto Fant4stico... Eu poderia continuar indefinidamente, mas acho que já me fiz entender.

Remakes nem sempre são uma ideia ruim. Muitas vezes eles adaptam um conceito obsoleto e o tornam mais palatável para um público moderno (como A Mosca). Mas quando os cinemas são anualmente entupidos de tais produções, é de se esperar que as pessoas simplesmente parem de prestar atenção nelas.

Quanto a toda “misoginia” que cercou este longa, ela veio de uma minoria extremamente barulhenta, como tudo que acontece na internet. O grande público não dá a mínima para o gênero dos personagens em um filme. O sucesso das franquias Alien, Resident Evil, Tomb Raider e Anjos da Noite prova isso.

Toda a guerra ideológica que se formou em torno deste filme foi fomentada por partes que tinham algum interesse financeiro na polêmica. A Sony acreditava que venderia mais ingressos se transformasse Caça-Fantasmas em um pilar do feminismo, a mídia de entretenimento abraçou a narrativa da misoginia para atrair mais audiência na televisão e cliques em sites, e blogs e páginas de Facebook queriam apenas curtidas e compartilhamentos, para aumentar seu alcance e poder na internet.

Assim, se defendeu este filme com unhas e dentes contra um exército de misóginos virtuais, lamento informar que o tal exército era só um cara com uma faquinha de rocambole, e você foi apenas um joguete nas mãos da Sony e da grande mídia.

"Gente da internet perdendo tempo com bobagem? NÃO PODE SÊ!!!"

No fim das contas, sinto-me muito triste quando olho para este filme. Especialmente por causa das meninas, porque elas tentaram de verdade.

Com um roteiro mais trabalhado e nas mãos de um diretor competente, Caça-Fantasmas teria a chance de fazer jus ao legado que carrega. Infelizmente, é um filme que estará eternamente atrelado as polêmicas que o seguiram, e jamais será julgado por seus próprios méritos.

Caça-Fantasmas não é um filme bom, tampouco ruim.

É só um filme que ninguém pediu.

Cheers!!!

15 comentários:

C disse...

Um dia os produtores de conteúdo entenderão que a meia dúzia de gato pingado que passa vergonha no Tumblr porque o protagonista do filme de ação não é uma mulher negra obesa tetraplégica transexual nunca pretendeu assistir/ler/jogar o que estavam criticando e que o público mesmo apenas se importa se a história é boa e divertida, com ou sem a cadeirante obesa tetraplégica transexual. Mas esse dia não será hoje!

Will 2 disse...

Amer,pode me mostrar essa notícia da ameaça de processo do Bill Murray?Não consegui encontrar.

Lance "Avalanche" disse...

Cara...só discordo pq o filme é realmente ruim XD

Lance "Avalanche" disse...

Will

A Ameaça de processo apareceu no meio dos emails hackeados pela China a uns anos atrás.

Galomortalbr disse...

nao vi esse filme e nem quero ver,mas mesmo assim otima critica amer

Adan Ribeiro disse...

Falando do filme BOM: Bill Murray improvisou o filme todo. Então podemos dizer que isso é uma espécie de tradição nos filmes. Talvez uns acertem e outros não.

E outra... Vocês sabiam que originalmente o Winston seria um veterano da guerra do Vietnã e que se integraria ao grupo para chutar bundas e ser um cara DURÃO que olharia ombro a ombro com seus companheiros caça-fantasmas para dar mais masculinidade ao grupo?

No entanto o budget não autorizou o desenvolvimento do personagem e desde então rola essa impressão de descaso étnico que assombrou o Ernie Hudson desde sempre. O próprio sr. Hudson diz em entrevista que precisava muito do emprego na época e não se propôs a objectar nenhuma decisão.

C disse...

- Chefe, não entendo. Estamos lançando as mesmas coisas com gráficos atualizados, porque as pessoas não gostam dos nossos filmes? Será que devemos tentar peitos que balançam mais ou atirar em crianças?
- Pela última vez, não estamos mais trabalhando com jogos, Jorge!

Leon Ko-toxico disse...

Nao é porque o Bill Muray parece um pão sírio que foi largado na chuva,é que ele ainda não tirou a maquiagem de zumbi de quando ele atuou no Zumbilandia....
ABENÇOADO SEJAM OS OPERÁRIOS!!!!

Leandro"ODST Belmont" Alves the devil summoner disse...

Boa análise, mas esse filme eu não fiz nem questão De ver. Muito menos pela Internet. Pois sempre caguei litros para a franquia Caça Fantasma. Sei que era um clássico dos filmes a tarde, Mas nunca achei graça em 4 quarentões a investigar o sobrenatural tendo como o mascote, o Geleia que não consegue beber um simples copo d'água a fazer nojeira no ato. Até o desenho deles não curtia.

Sobre esse Reboot, é como você falou, Queriam polêmica e se deram mal. Se um dia passar na HBO, darei uma chance é irei assistir.

Leandro"ODST Belmont" Alves the devil summoner disse...

É sobre os remakes e Reboot, desde que não mexam com o "De Volta para o Futuro " por mim, de boas.

O espaço-tempo não aguentaria tamanho sacrilégio.

Norimaro disse...

Amer como sempre manjando até dizer chega.

Quem dera os críticos que exaltaram esse filme tivessem esse seu método cirúrgico e de conhecimento pop honesto que você tem.

Abraços.

Mikery disse...

Coitado do Bill Murray
https://m.youtube.com/watch?v=JGz4crv-OZI

Fabianaaaa disse...

Não posso falar desse filme porque não assisti, mas sou só eu que acho o original tremendamente superestimado? Talvez eu deva assistir de novo pra ver se é todo esse recheio de petit gateau, porque pra ser sincera achei bem sem graça quando assisti. Ou então a galera esteja colocando o original num pedestal só porque teve remake.
Estou mesmo preocupada é com o reboot de A Múmia, que é na minha opinião o melhor filme de todos os tempos e sempre vai continuar sendo a perfeição suprema tratando-se de blockbusters.
Em suma, filmes considerados clássicos (mesmo que não sejam para muitas pessoas) deveriam permanecer intocados. É muito simples fazer um filme parecido sem usar o nome do clássico, mas todos nós sabemos por que os produtores envolvem o nome mesmo assim. ($$$$$$$$$$$$$$$$)

Unknown disse...

Amer, vc joga algum jogo da série civilization?

Alex Burgess disse...

Eu só não sei o que é mais insano desse filme: a polêmica em si ou as atrizes zombando de quem fez comentários negativos sobre o trailer no YouTube.

Quem sabe eu veja quando estiver passando na TV paga ou no Netflix, mas até lá prefiro a velha coleção de esporos, fungos e bolor.