terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Games Antigos que Amo: Grand Theft Auto San Andreas


Eu devia estar escrevendo a Newsletter do mês para os meus Padrinhos, ao invés disso estou procrastinando.

Pelo menos é uma procrastinação produtiva, pois vai render um artigo novo, então cale-se e aproveite os próximos vinte parágrafos onde falo de seu game favorito do Playstation 2: As Aventuras Virtuais do Jovem Spike Lee.

O ano é 2004. Você está na loja de seu pirateiro de confiança, vestindo uma camiseta do Corinthians (falsificada, claro), um bermudão três números maior, um chinelo surrado, brandindo seu aparelho ortodôntico amarelo que alguém te fez acreditar que era um aperfeiçoador de carisma, e aguardando o dono da loja voltar com o mais novo título da série GTA.

Eis que ele volta com um disco em um envelope plástico adornado com uma impressão malfeita da capa original do game. O DVD traz um adesivo com a mesma impressão tosca o cobrindo e foi colado com má vontade suficiente a permitir que bolhas de ar se formassem em sua superfície.

Você paga os 10 Reais, coloca debaixo do braço a SuperGamePower que comprou há meia hora, mas que já está tão surrada que parece ter sido encontrada em um campo de batalha da Primeira Guerra, pega seu joguinho e vai pra casa.

Regressando ao lar, sua mãe o lembra que você não colocou comida pro cachorro, o chama de vagabundo, imprestável, diz que vai dar uma de louca e atear fogo na casa um dia desses, em seguida volta a assistir o programa do Datena. Você dá um tapa no irmão caçula por mero esporte, liga seu Playstation 2, joga longe o disco de “Wing Elévi” que se encontrava em seu interior (e depois se questiona como o dito disco está sempre cheio de riscos) e prepara-se para iniciar mais uma aventura épica no mundo do crime que a Rockstar criou com tanto carinho e cerveja.

Algumas pessoas nunca desapegaram dessa aventura épica e hoje dão jeitos de enfiar a Dilma nela.


Grand Theft Auto San Andreas foi o Magnum Opus da Rockstar na época e gerou controvérsia mesmo antes de ser lançado. Moralistas ficaram enfurecidos ao descobrirem que um novo título “daquele game onde se ganha pontos ao estuprar mulheres” estava pra chegar as lojas, idiotas se irritaram quando souberam que o protagonista do jogo era negro, usuários dos fóruns da Gamefaqs se emputeceram com toda essa gente cheia de raiva sem motivo, e eu me cuspi fogo ao saber que teria um novo GTA pra defenestrar quando sequer tinha completado 100% de Vice City.

P.S: Ainda não completei.

Então, San Andreas foi lançado e todo mundo (menos os moralistas) calou a boca. O título era glorioso, nos oferecia um estado inteiro para brincar e sem telas de loading entre uma área e outra do mapa (um feito tecnológico com o já senil hardware do PS2 da época), tínhamos uma infinidade de carros, motos e aviões para pilotar, além de códigos e trapaças para testar. Claro, o game era mais feio do que bater na mãe usando a avó como aríete, mas isso não importava quando ele trazia uma história cativante, mapa gigantesco, trilha sonora com Motorhead e Glenn Danzig, e a cena do Big Smoke pedindo comida no Drive-Thru.

Uma das coisas que mais amo com relação a GTA San Andreas é o momento transicional que ele representa. Por décadas, videogames fora apenas brinquedos de luxo, uma distração abilolante que derretia o cerebelo das crianças enquanto elas apertavam botões no ritmo das cores e sons apresentados na tela, enquanto tentavam bravamente impedir que a baba escapasse de suas bocas e manchasse seus pijamas do Pateta. Nossos pais viam como uma perda de tempo, a mídia via como o passatempo do inculto e se desejássemos receber um mínimo de respeito de nossos colegas na escola ou trabalho, precisávamos ocultar este hobbie e paixão por assassinar prostitutas que ele nos despertava.

As aventuras de CJ chegaram em um momento que a percepção sobre este passatempo começava a mudar. Os jogos não pareciam mais meros desenhos animados produzidos em um estúdio coreano movido a mão de obra escrava (o que engloba todos os desenhos animados produzidos na história), mas começavam a se assemelhar a produções hollywoodianas. Títulos como Onimusha 3, Kingdom Hearts e Metal Gear Solid chamavam a atenção mesmo daqueles que não sabiam a diferença entre um Battletoad e uma verruga genital, e nomes como Lara Croft começavam a ganhar força na mídia mainstream.


Era uma deliciosa era de especulação. O Xbox vem com um disco rígido? Será que isso se tornará o padrão e não precisaremos mais de Memory Cards? Podemos agora conectar a internet com uma linha de alta velocidade e jogar Halo 2 com cidadãos da China enquanto seu governo não descobre que eles estão confraternizando com pessoas de outras partes do mundo e os arrasta esperneando até campos de trabalhos forçados? Há jogos sendo gravados em DVD’s de dupla camada que não podem ser pirateados e seremos obrigados a comprar o título original de forma legalizada? OOOOHHHH! OS MEUS SAAAAAAIIIIIIISSSSSS!!!

Esperávamos o melhor, um mundo que era um privilégio ver daqui, enquanto uma princesa loli nos acompanhava na cantoria. De forma alguma imaginaríamos o mundo horrendo que temos hoje, com mega corporações requentando os mesmos jogos AAA que são lançados todos os anos, dezenas de estúdios Indie entupindo o Steam com seus “Simuladores de Caminhada” que de alguma forma ensinam que o mundo é extremamente opressor e horrível para com os Millenials, e nenhum daqueles estúdios de médio porte que serviam de recheio para a indústria, pois todos faliram no momento que a produção de um game de segunda passou a custar mais que o PIB do leste europeu.

Mas GTA San Andreas também é marcante por ter surgido durante a infância da internet, quando a rede mundial de computadores ainda era usada para a diversão e pornografia, ao invés de ódio, ultraje e pornografia como acontece hoje.

Naquela era tão distante que hoje podemos afirmar que íamos à escola montados em dragões e ninguém se lembraria dela suficientemente para discordar, nos prostrávamos em frente a nossos monitores imensos e que deixavam marcas de queimadura nas paredes com seu calor reminiscente de turbinas nucleares, para compartilharmos de uma paixão em comum. Adentrávamos fóruns para trocar experiências, comentar momentos favoritos, inventar que tínhamos feito coisas que a programação do jogo simplesmente não permitia (“eu juro, entrei na água com as janelas do carro fechado e pude dirigir pelo chão do oceano”) e todo tipo de balela.

Isso aconteceu de forma orgânica. Encontrar pessoas com gostos semelhantes e tão dispostas a gastar dias de suas vidas desvendando os mistérios de San Andreas nos dava uma sensação de comunidade. Diabos, podíamos ser cheios de espinhas e apanhar na escola na vida real, mas no momento que divulgássemos um código de câmera lenta no fórum do jogo, eramos considerados mais heroicos do que Steve Rogers após chutar o pinto de Thanos.

Mais importante, era extremamente satisfatório fazer parte de uma comunidade que se erguem em armas quando os puritanos da sociedade tentaram tomar nosso jogo e nos rotular como animais por gostarmos dele.


Lembram da polêmica do “Hot Coffee”? Quando modders descobriram arquivos dentro do jogo com um minigame sexual? Mais precisamente, um minigame onde CJ se atracava em posições constrangedoras com suas namoradas sem que nenhum dos dois tirasse as roupas, e os dois tentavam reproduzir o ato sexual com ainda menos entusiasmo do que os atores daqueles filmes softcore que passam no Telecine durante a madrugada? De alguma forma, os guardiões morais da sociedade acreditaram que esta bobagem destruiria a psiquê das crianças e as faria usar a colher do Danoninho para cavarem buracos no chão onde enfiariam o pinto, assim, efetivamente estuprando o mundo.

Foi uma época bastante frustrante para se ser um gamer, pois para onde olhássemos, havia alguém apontando para nós e nos chamando de degenerados. As mães imprestáveis de plantão alegaram que o jogo corromperia seus adoráveis infantes, sem saber que a venda do mesmo era proibida para menores de 17 anos e que seus inocentes pimpolhos provavelmente já haviam engolido o sêmen de ao menos um coleguinha no vestiário da escolinha de futebol. Jack Thompson, então maior inimigo dos games, usou a polêmica para afirmar que tudo que ele sempre disse de ruim sobre games era verdade, e até mesmo a porra da Hillary Clinton decidiu marchar contra os games, afirmando que a juventude americana DEVIA ser protegida.

De repente não é mais tão difícil entender como ela perdeu uma eleição presidencial praquilo que é basicamente uma refeição do KFC vestindo terno.

Claro, a imprensa mainstream pegou essa bola e correu com ela, dando ainda mais força aos berros de cruzados da moral que sequer sabiam do que estavam falando. Um bando de velhos que não entendia como games funcionavam, tampouco que o conteúdo “sexual” não podia ser acessado através de meios normais, decidiram que o mesmo era responsável pela destruição da fábrica da realidade.

Digo, dane-se que crianças e adolescentes morrem diariamente por viverem em regiões perigosas e carentes de recursos básicos, e que muitos sofrem exploração sexual... GAMES, CARA!!! Este é o inimigo que deve ser combatido.

Nesta época, era um alívio ter o santuário fornecido pelas comunidades de fãs espalhadas pela rede. Por incrível que possa parecer, era como se as únicas criaturas sãs que restavam no planeta fossem um bando de adolescentes e jovens adultos que passavam tempo demais na recriação virtual da área de Los Angeles-San Francisco-Las Vegas que os chefões da Rockstar idealizaram. Quando o mundo real tornou-se idiota demais e negava-se a ouvir a razão, sempre podíamos recorrer a internet para encontrar vozes que se uniam as nossas quando questionávamos quando a loucura iria acabar.


Hoje vivemos em uma permanente era de pânico moral com relação a games.

Alguns anos atrás, duas garotas gritaram “MISOGINIA” com tanta força, que mudaram todo o cenário da indústria de games. Sites especializados no assunto do dia para a noite tornaram-se os guardiões da moral e da virtude que combatiam meros anos atrás, e passaram a acusar seu público de todo crime de ódio imaginável, se o mesmo discordasse uma vírgula que fosse das palavras das já mencionadas garotas.

As produtoras de games logo começaram a dançar ao som desta mesma música, transformando seus jogos em paradas de valores progressistas que nem sempre condiziam com as opiniões de seu público. Obviamente, os produtores de tais jogos uniram-se ao coro dos jornalistas e passaram a pisar naqueles que eram seus consumidores leais, sempre que os mesmos não aplaudiam a forma que suas séries favoritas eram transformadas em palanques para discursos políticos maniqueistas e juvenis.

A mídia mainstream, sempre faminta por uma polêmica, jogou ainda mais gasolina no fogo, equivalendo o público gamer a basicamente uma reencarnação do partido nazista, só que coberto de farelo de Cheetos.

E da mesma forma que aconteceu na época do pânico moral de San Andreas, buscamos refúgio em pequenas bolhas da internet que ainda não foram tomadas pela insanidade. Locais onde podemos conversar sobre os games que amamos de forma livre, sem nos preocuparmos com julgamentos morais ou as hoje tão frequentes acusações de “ismos”.

GTA: San Andreas definitivamente não criou os fóruns de games. Tal honra deve pertencer a algum jogo de PC ruim dos anos 1990 que só meia dúzia de pessoas se lembram, mas que defendem ferrenhamente como “a coisa mais inovadora já criada desde o molho de tomate”.

Provavelmente, Myst.

Mas num mundo onde sempre haverá algum pilantra disposto a pintar games como a cria de Baphomet se isso lhe render fama e fortuna, o jogo da Rockstar nos mostrou como é importante ter um lugar onde possamos nos refugiar da loucura e estupidez do mundo, e tenhamos a certeza de que não estamos loucos por acharmos que somos os únicos a perceber que o pânico moral sobre **insira aqui o game do momento** não passa de uma grande idiotice.

Cheers!!!

10 comentários:

pet disse...

Eu comecei a perceber que as pessoas já não viam games como um brinquedo de luxo quando eu via um pedreiro que nunca tocou em vídeo game antes, jogando GTA SA, Metal of Honor, Wing Eleven numa locadora perto de casa que tinha playstation 2.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Excelente artigo Amer! Cara, você escreve muitíssimo bem. Dá gosto de ler seus artigos.

Me lembro bem de quando joguei esse jogo pela primeira vez. Meu PC na época com 128 de vídeo, 512 de RAM e 80GB de HD rodou na estica esse jogo.

Era um liberdade imensa. Momentos em que pudíamos fugir da realidade e se encarnar no CJ fazendo o que nos desse na telha. Uma das coisas que eu mais gostava de fazer era colocar minhas musicas favoritas do PC no jogo e rodar o mapa todo de caminhão. gastei muitas horas fazendo isso, só curtindo o visual do jogo.

Pra mim esse jogo marcou uma época muito bacana, e foi o precursor dos jogos de mundo aberto que temos hoje. Foi bacana ter jogado esse jogo na epoca do seu lançamento e hoje ver o que toda a série se tornou. E é claro, aproveitar os trilhões de MODs que temos pro GTA SA.

Deu até vontade de jogar novamente.

Bier disse...

Bem verdade, os fóruns eram um refúgio... foi graças a eles que eu encontrei gente que gostava de King Of Fighters, quando eu achava que era o único garoto no meu Estado que curtisse o jogo.
Nunca terminei GTA S.A., mas tenho o jogo até hoje.
Obrigado por manter esses sentimentos vivos, Amer!
Um abraço!

Leo D'Leon disse...

gostei de como voce descambou o assunto pra quando o cenario dos jogos mudou pra essa coisa de politica a frente da criatividade. uma ideia seria se voce fizesse uma analise mais minuciosa sobre isso, sei la, seria uma boa, ja que voce pôde acompanhar tudo isso de perto!
ps: pensei que voce iria falar so do GTA San Andreas mas ta valendo! cuidado pra nao descambar pra essa questao da politica sempre;)

Leandro"ODST Belmont Kingsglaive" Alves the devil summoner disse...

Esperando um dia Hammer, você fazer um review dessa série clássica que é Myst e Riven que é ainda mais emblemáticos com Seus puzzles nas ilhas localizadas nos livros de RLEH e....

Ah, tenho de comentar sobre GTA San Andreas? Oh Well.

Gtas para mim somente aqueles com Av câmera em cima do personagem, esses jogos mais modernos da franquia nunca me apeteceram. parei no GTA Chinatown Wars do NDS. Mesmo assim, jogarei o San Andreas qualquer dia desses

Adan disse...

Este Blog é o meu refúgio.

Deserttrunade disse...

Excelente artigo amer eu tava pensando já que você fez uma análise do filme de street figther a animação que tal falar sobre as animações dos jogos da snk como fatal fury (esse teve tres filmes ) art of fighting (esse teve um só ) e samurai shodown (esse teve vários ) eu acho que bastante gente ia gostar lhe desejo muitos leitores novos Thau

Blog do Flicky disse...

Até hoje esse é o meu jogo favorito desse console, graças a ele eu comecei a amar jogos de mapa aberto. Concordo com você Amer, essas pessoas que demonizam os games e o culpam por tudo são um bando de debiloides imbecis,só discordo quando fala para eles arranjarem outro problema pra criticar, do jeito que são eles vão ferrar tudo e arranjar um inocente pra culpar.

Video Teraveloka disse...

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