terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Games Antigos que Amo: Breath of Fire II


Feliz Ano Novo e sejam bem vindos a uma nova série de artigos, batizada de “Games Antigos que Amo”. Nela falarei da conexão entre a não-ingestão de verduras e conservadorismo.

Estes artigos não são críticas. Não pretendo fazer uma análise clínica dos games aqui debatidos, apenas um apanhado das qualidades que mais me apetecem nas obras aqui tratadas, com base em minha memória e na lembrança afetiva das mesmas.

Esta série não terá uma periodicidade específica. De fato, é bem possível que eu a abandone assim que perder meu interesse por ela, assim como aconteceu com o Vamos Refazer e meu “remake” de Transformers que ficou perdido no tempo e que com o lançamento de Bumblebee, tornou-se totalmente desnecessário.

Assim, aproveitem esta nova estirpe de textos enquanto ela durar, o que pode ser só hoje.

Falemos agora de Breath of Fire II.


MAS ANTES… Eu preciso falar um pouco do Breath of Fire original, para poder situá-los na história.

Breath of Fire foi produzido pela Capcom e lançado para o Super Nintendo em 1993. A empresa não tinha muita experiência com JRPG’s na época, mas acredito que os milhões gerados por Street Fighter lhe deram a coragem necessária para tentar tomar a coroa das séries Final Fantasy e Dragon Quest.

Spoilers do futuro: A Capcom não conseguiu.


Em Breath of Fire, controlamos Ryu (que o jogador pode rebatizar com o nome que quiser, desde que tenha quatro letras), o mais jovem membro do clã dos Dragões da Luz, e único sobrevivente de um brutal ataque do clã dos Dragões das Trevas. Como o nome implica, os Dragões das Trevas ocupam seu tempo com vadiagem e outras coisas que não prestam, como juntar um punhado de chaves místicas e usá-las para libertar uma antiga deusa da destruição de sua prisão.

Claro, cabe a Ryu juntar um grupo de amigos coloridos e chutar a bunda da deusa com tanta força que sua bota reterá permanentemente um leve odor fecal, fraco suficiente para ser ignorado no dia-a-dia, mas forte o bastante para tornar-se um problema durante entrevistas de emprego.

O primeiro Breath of Fire é extremamente simples, mas competente em sua execução. Não conseguiu desbancar os titãs do gênero, mas cativou fãs suficientes para a que a Capcom considerasse lançar uma continuação.

E é aí que o bicho pega.

Breath of Fire II é uma criatura completamente diferente de seu antecessor. Enquanto Breath of Fire era uma aventura Sessão da Tarde onde um grupo de amigos se unia para vencer um monstro antigo, a continuação é permanentemente assolada por um ar de tristeza e desesperança.

Sua história se passa centenas de anos após o jogo original, e iniciamos a aventura controlando um novo Ryu (todos os heróis da série se chamam Ryu), que mora com seu pai e irmãzinha numa vila à sombra de uma montanha sobre a qual um dragão adormeceu anos antes. Uma tarde, Ryu sai em busca de sua irmã e a encontra dormindo próxima ao dragão. Ela lhe explica que quando faz isso, ela consegue sonhar com sua mãe e aconselha Ryu a fazer o mesmo. O menino faz e quando acorda, sua família desapareceu e ninguém na vila se lembra dele.


O jogo não dá explicações, de repente você está no controle deste menino que teve sua vida arrancada de suas mãos em um (literal) piscar de olhos. Você está tão confuso quanto ele e embora o conheça a apenas alguns minutos, consegue empatizar com sua perda e confusão.

Sem ter para onde ir, os aldeães encaminham Ryu para a igreja... Seu antigo lar... Que agora acolhe órfãos. Ver o quarto do protagonista ser transformado em um alojamento de crianças indesejadas, não apenas reforça a sensação de perda como deixa clara a nova situação de Ryu no mundo.

No local ele encontra Bow, outro órfão, mas muito mais malaco. Bow começa a roubar todos os itens de valor do local e aconselha Ryu a fazer o mesmo, pois crianças como eles tem de se virar, uma vez que os adultos não farão nada por elas.

Em menos de um dia, Ryu perde sua família e torna-se um ladrão... Mas as coisas tomariam um rumo ainda mais sinistro quando naquela mesma noite, ao fugirem do orfanato, Ryu e Bow se depararam com uma criatura sinistra dentro de uma caverna, que os ataca e os deixa para morrer, não sem antes chamar Ryu de “a criança predestinada” e lhe dizer que “quando abrir o portal, ele entenderá o poder de Deus”.


Então... Temos um salto no tempo. Ryu e Bow estão crescidos e trabalhando como caçadores de recompensas na guilda de sua cidade. Esquecemos dos eventos bizarros da abertura do jogo e seguimos com a aventura, sem perceber que estamos agindo exatamente como os personagens, que tiveram de esquecer este momento traumático de suas infâncias se queriam cultivar um mínimo de vida normal.

Assim começa Breath of Fire II. Diferente de seu antecessor, não é mais um RPG “Sessão da Tarde”, com heróis jovens cheios de confiança e vilões cômicos com planos clichêzentos para a dominação/destruição do planeta. Aqui temos um mundo opressor e perigoso, onde empresários corruptos não vêem mal em ter uma menina de 14 anos como lutadora de arena e posteriormente envenená-la, se isso beneficiar as bolsas de apostas.

Mas grande parte da criação deste clima pesado se deve a construção do mundo de Breath of Fire II, que estabelece de forma perfeita o quanto tudo mudou nos séculos que passaram desde a aventura anterior. Um exemplo é a presença de igrejas dedicadas a St. Eva por onde quer que passemos. Em termos práticos, tais lugares servem como Save Points, função preenchida no jogo anterior por altares dedicados ao Deus Dragão. Totens desta divindade esquecida ainda podem ser encontrados e usados para guardar o progresso do jogo, mas elas normalmente se encontram em diferentes estados de decadêncis, mostrando o quanto o antigo deus caiu de sua graça após o surgimento da nova fé.

Os templos de Eva também são uma constante lembrança das palavras do monstro que Ryu encontrou em sua infância, sua referência a “Deus”. A onipresença desta nova religião no mundo é suficiente para criar uma sensação indelével de sufocamento, ainda que não a percebamos de forma consciente, e que torna-se mais clara a medida que a história avança e descobrimos que sim... Eva é um deus perverso e sua “religião” é apenas um culto maligno com boa publicidade... E que se espalhou pelo mundo. Como um grupo de amigos pode enfrentar algo tão grande? As perdas incalculáveis que Ryu e seus amigos sofrem ao longo da aventura demonstram o preço astronômico que eles terão de pagar se quiserem se opor a esta força tão gigantesca.


Claro, Breath of Fire II possui momentos de leveza, mas mesmo eles trazem uma profundidade raramente vista em games do gênero.

Por exemplo, temos um QUASE triângulo amoroso na história. As duas primeiras companhias permanentes de Ryu no game são Katt (Rinpoo, na versão japonesa) a menina tigrinha, e Nina, princesa do clã alado e que como o protagonista, possui uma encarnação nova a cada jogo da série. Ambas as meninas demonstram interesse no herói em diversos momentos, mas relacionamento algum é estabelecido entre os personagens. Katt é imatura demais para ser honesta com seus sentimentos, Nina é insegura e tímida em demasia para confessar o que sente, e Ryu é um "protagonista mudo", que existe apenas como avatar de quem o controla. Ambas as meninas só conseguem demonstrar suas emoções durante o final infeliz do game, que não vou contar aqui, mas que é uma paulada nos feels mais forte que The Last of Us inteiro.

Sem brincadeira.

Breath of Fire II é um dos melhores JRPG’s do Super Nintendo e é uma pena que não seja mais conhecido hoje. Ele não se tornou um nobre desconhecido como Robotrek, mas nunca alcançou a popularidade de um Chrono Trigger, destino razoavelmente comum para jogos do gênero nascidos antes de Cloud e sua trupe alegre o popularizarem pelo mundo afora.

Esta aventura demonstra uma maturidade raramente vista em games, mesmo hoje. Games “adultos” são uma constante no presente, mas na maioria dos casos eles se esforçam tanto para ser “filmes interativos”, que suas histórias não nos marcam. Somos presenteados com produções milionárias e atuações dignas de Oscar, que na maioria das vezes mal nos fazem emitir um “meh”. Com bonequinhos “chibi” e um monte de texto corrido, o segundo grande JRPG da Capcom consegue deixar uma impressão muito mais duradoura no público.


Pra quem tiver interesse, um remake foi lançado para o Game Boy Advance, com o acréscimo de algumas cutscenes. Elas não incrementam muito a narrativa, mas são bem bonitas de se olhar.

De resto, recomendo este game a qualquer um que curta JRPG's com personagens inesquescíveis e uma boa história. Breath of Fire II é intuitivo sem ser simplório e desafiador sem ser injusto, uma combinação mais perfeita que catchup na pizza.

E Waifus.

Aqui tem várias.

Contemplem algumas.


Cheers!!!

13 comentários:

Jota disse...

Oh meu Deus, o Hammer iniciou uma série! Omeudeusomedeuomeudeus!

Vou jogar esse game... Alguma hora. Ano mal começou e eu já procastino! Eargh. Mas esse realmente parece ser um ótimo game, já vi muita gente (quatro contando com você HAHAHA) falando bem. Só uma pergunta: é importante jogar o primeiro também? De resto, ótimo texto, Amer!

Vinícius Alves Hax disse...

Bela resenha, deu até vontade de jogar. Acho que joguei só o primeiro mas larguei no meio.

Leandro"ODST Belmont" Alves the devil summoner disse...

Feliz ano novo Amer e a todos que lerem esse blog. Excelsior!!, ZA WARUDOO!! ,Takeshi Sama!!, Dia do Doutor!!.

Eu comecei a jogar a série Breath of Fire pelo quarto jogo da série do PS1 nas locadoras e cheguei a termina-lo onde o pessoal do recinto se reuniu para me ver enfrentar o Fou-Lu. foi um dia épico, daí então fui atrás dos outros jogos da série... mas não fui jogar o PS2, o "Dragon Quarter". (Ouvi dizer que é um bom jogo se der uma chance, mas... ) e o aquela abominação para celulares nem me atrevi a baixar.

O segundo BOF foi o último da franquia que zerei. Realmente o jogo tem aquele clima de desesperança em certas partes e o final triste é considerado o mais bonito da série em comparação ao final bom que chega a ser retardado de tão feliz que é. Eu fiz esse final, mas o fim mais melancólico é o mais canônico na minha cronologia pessoal.

E acho que esse é o único BOF onde Ryu acaba com um par romântico. Nina nas outras vidas, era somente amiga do protagonista ou estava a fim de outra pessoa como em BOF 4, onde ela gosta do Cray, o homem tigre do grupo de bom-coração-que-vai-no-bosque-pegar-lenha.

Mas ainda sim, Katy Waifu eterna da franquia, Depois vem a Momo de BOF 3.

Faça mais dessa série Amer. Espero você falar de talvez Chrono Cross, onde é uma excelente continuação do Trigger, mas é neglegenciado injustamente pela maioria.

Ou de algum Shin Megami Tensei, talvez?

Diogo Lopes Bastos disse...

Excelente artigo Amer, sou um grande fã dos quatro games lançados para o Super Nintendo e Playstation, o Dragon Quarter tem uma jogabilidade legal, mas na questão de personagens e história perde feio para os outros.
Esse game realmente é um dos mais dramáticos que já joguei até hoje, você consegue se relacionar com todos os personagens precisando lidar com dilemas pessoais e as tragédias que vão ocorrendo no gameplay é um soco no estomago atrás do outro, sem contar um dos finais que te emociona pelo que ocorre. É um game que sempre recomendo as pessoas jogarem porque vale a pena.

Nova Andrew disse...

Olá Amer. Excelente artigo. Infelizmente meu saco para jogar JRPGs nos últimos anos foi muito para baixo. Impressionante como por melhor que sejam os jogos eu os abandono. Joguei esse jogo até a metade 3 vezes e nunca termino.

Ítalo dos Santos Alves disse...

Só faltou mencionar que a capa americana do game n tem absolutamente NADA haver com o game em si.

Ladrhobbit disse...

Creio que você já tenha falado do game em um outro artigo, não sei se foi um artigo do antigo Blog de Games, ou de alguma lista. Na ocasião você até falou do final (ruim) do jogo. Felizmente eu me esqueci de detalhes desse trecho, pois não o joguei ainda. :P

Lembro que na época do Orkut, os fãs de BoF ficavam desesperados falando da possibilidade de um BoF VI, mas com a saída do Inafune do Capcom, parece que a possibilidade de BoF renascer se foi de vez. Anos depois, surgiu o Breath of Fire 6 de celular, um jogo que praticamente ninguém jogou. RIP, Breath of Fire.

O Taverneiro disse...

Ei Amer, feliz ano novo!

MatteusBoni disse...

Fala grande Amer. Pois bem, vamos ao artigo de Breath of Fire 2: Eu achei que foi um puta jogo de rpg que eu joguei e zerei em anos recentes, tudo isso graças a recomendação de um amigo meu.

Enfim...esse jogo é bonito, graficamente ele era tão vivido, seu layout era muito melhor que o do jogo anterior e tinha personagens carismáticos e bem desenvolvidos em termos de apelação (lembro de usar um detonado que dizia que a Spar era uma merda...BULLSHIT).

Esse jogo não segura nenhum soco no estomago mesmo, o tanto que já chorei pelas mortes e sacrificios que foram ocorrendo ao longo da história não é brincadeira, isso que eu nem preciso ir muito longe, é só lembrar da Mina.

Finalizando, Feliz ano novo Amer e belo pé direito com a criação desse novo estilo de artigo, aguardarei pelos próximos.

DESMONETIZAÇÃO disse...

Que coincidência eu zerei a versão de gameboy afaz quase um mês e agora vou começar o breath of fire 1 eu fiz o final bom e não me importa o quanto ele seja ridículo pra mim acabou que no final o ryu não virou Dragão e ficou com as duas mais a bleu e as chamas foram divididas entre o grupo final feliz

Rubens Leite disse...

Cara não acredito que esse blog ainda existe, quantos anos tem essa joça? Meu deus, faz uns 10 anos desde a primeira vez que vim aqui. Do nada lembrei e não é que já tem artigo novo em 2019?! kkk Vlw Amerídio

Bier disse...

Grande Amer! Adorei seu ponto de vista sobre esse game. E você spoilerizou bastante naquele artigo sobre coisas tristes nos games.
Decididamente vou adicionar à minha lista retrô.
Um abraço e feliz ano novo!

Sogoken disse...

Esse com certeza está na minha lista, uma hora dessas farei uma maratona de Breath of Fire, mas primeiro tenho que terminar com a minha maratona de Ys.