domingo, 4 de agosto de 2019

Game Antigos que Amo: The Peace Keepers


Iniciei esta série pra preencher buraco no blog entre os artigos maiores e que dão mais trabalho... E acabo de perceber que ela acabou tão esquecida quanto tudo mais que eu produzo aqui.

Bem, preparem-se para mais um artigo sobre um game antigo com o qual absolutamente NINGUÉM se importa: The Peace Keepers.

Originalmente conhecido como Rushing Beat Shura.

Por favor, sem piadas com o cavaleiro de Capricórnio. Diga Não ao Prassódia.

Mas antes, uma pequena história sobre a franquia.

Rushing Beat foi a tentativa da produtora Jaleco de faturar com a febre dos beat’em ups dos anos 1990, desencadeada por Double Dragon e potencializada por Final Fight.

De fato, o primeiro game da série era uma cópia tão descarada de Final Fight, que fazia o Spectreman parecer um personagem original. Aqui, tínhamos um pescoço de lápis bonitão (Rick Norton) e um cosplayer parrudo de M. Bison (Douglas Bild) removendo dentes de meliantes em uma busca enlouquecida pela irmã sequestrada do protagonista, tudo isso regado a deliciosos cachorros quentes encontrados no lixo, como era moda na época.

Rushing Beat não era o melhor game de seu gênero. Pra falar a verdade, não conseguia se destacar nem entre os medianos. Sua detecção de colisão era péssima, o que o tornava mais difícil do que precisava ser, os designs de personagens eram mais sem criatividade do que figurino de programa infantil do SBT, a trilha sonora parecia ter sido composta pelo irmão desempregado de um dos produtores, que se considerava músico por ter um teclado da Casio, e a saturação de cores na tela era capaz de fazer doer os olhos de uma pessoa com acromatopsia.

E claro, não vamos esquecer da hilária capa que o game recebeu ao chegar no ocidente:


Provavelmente idealizada por alguém que escutou o nome “Rival Turf” e imediatamente o associou a Warriors - Os Selvagens da Noite, tentando então fazer uma capa que remetesse ao cultuado filme de 1979.

Fracassou lindamente nesta empreitada.

Mesmo assim, Rushing Beat (ou Rival Turf, se preferir) se tornou um game muito querido da molecada que frequentava locadoras nos anos 1990. Era o jogo que alugávamos sempre que Final Fight não estava disponível. Hey, não era perfeito, mas era uma opção melhor do que passar as últimas horas de domingo assistindo ao Fantástico com seu pai, enquanto ele suspirava de desespero ao saber que em meras oito horas, o suplício da semana de trabalho recomeçaria.

Apesar de suas imperfeições, o jogo fez sucesso suficiente para a Jaleco investir em uma continuação: Rushing Beat Ran.

Que no ocidente foi chamado de Brawl Brothers.


 Os programadores da empresa aprenderam com os erros do passado e conseguiram fazer de Rushing Beat Ran uma experiência muito mais refinada que seu antecessor. A detecção de colisão era melhor, o que resultava em um game mais justo, os gráficos mais bem feitos, com animações mais detalhadas e sem a saturação de cores absurda do título anterior, e a trilha sonora, embora não fosse memorável, não faria infecções no ouvido parecerem uma boa opção em comparação.

Mas o melhor mecanismo do jogo era oferecer cinco personagens controláveis, dos quais apenas dois podiam ser escolhidos no começo da aventura. Os demais tornavam-se chefes de fase e precisavam ser derrotados para que tivéssemos o direito de controlá-los na aventura. Uma ideia simples, mas que acrescentava muito ao replay do jogo.

E era divertido ver como as versões “alternativas” dos heróis eram representadas. Lord J ganhava um elmo demoníaco em sua versão maligna, Wendy usava um capacete de motociclista, e Douglas Bild abandonava seu boné de Bison e fazia permanente no cabelo.


Aliás, Rushing Beat Ran iniciou a breve tradição da Jaleco de nos apresentar personagens femininas com ZERO personalidade, mas que compensavam isso tendo peitos gigantescos.

Tradição esta que foi seguida por Kotono em Dead Dance.


Antes que alguém grite "MACHISMO", os personagens masculinos também eram tão carismáticos quanto bife de fígado, mas sem tetas que os destacassem.

Enfim, em 1993 a Jaleco decidiu lançar o título final de sua trilogia, que como estabelecido no início do texto, foi batizado de The Peace Keepers no ocidente, pois alguém na filial americana da empresa tinha fobia das palavras “Rushing” e “Beat”.

A história de Rushing Beat Shura TENTA (e esta é a palavra chave aqui) amarrar o enredo de toda trilogia, alegando que o mundo está em estado de caos, por conta de “Jeecus”, uma droga poderosa criada pelo vilão do primeiro game e distribuída pelo vilão do segundo. Em outras palavras, o desfecho da série mostra que todos os esforços dos heróis nos jogos anteriores foram em vão.

Vamos aplaudir as bolas deste game, pois não é todo cartucho que banca o Nelson Muntz digital e caçoa do jogador por este ter dedicado tempo de sua vida a terminar os demais games de sua franquia.


E há um escalamento no nível dos vilões também. Em Rushing Beat enfrentávamos uma gangue e em Rushing Beat Ran, lutávamos contra uma organização criminosa. Aqui, os oponentes são membros da Douglas Motors, uma corporação que usou pesquisas tecnológicas pra consertar o estrago mundial causado nos jogos anteriores, e que consequentemente, conquistou enorme poder político e dominou o mundo no processo.

Sendo a Douglas Motors (ou DM, como doravante irei chamar) uma corporação perversa com alcance global, é óbvio que todos os heróis do jogo foram afetados por ela de alguma forma. Dick (Flynn, na versão americana) teve o pai morto pela DM, Echo (Elfin nos EUA) ficou órfã de avô pelas ações da empresa, Kythrin (Al, na Trumpolândia) perdeu dois de seus soldados por conta da DM, e Jimmy (Prokop nos EUA) que busca sua irmãzinha desaparecida.

Norton também dá o ar de sua graça, pois sua irmã TAMBÉM foi sequestrada.

De novo.

Ela poderia dar aulas de Síndrome de Estocolmo a outras mocinhas dos games.

Vejam vocês, The Peace Keepers tem não uma , mas DUAS meninas sequestradas. Já sinto a Anita tremendo.

Tem também um robô entre os heróis, mas ele é uma bosta e não dou a mínima pra ele.

Então, sim. Em Rushing Beat Shura, as apostas são muito maiores que no resto da série. Os heróis são um pequeno grupo de rebeldes em busca de justiça contra uma entidade perversa que se estende pelos quatro cantos do globo, e enquanto enfrentam hordas de capangas sem rosto, não existem garantias de vitória ou sobrevivência. A atmosfera do game é muito mais sombria e pesada que a de seus antecessores.

Pelo menos até você cair de avião no meio da cidade e ir parar em um ringue de luta-livre onde o objetivo é derrotar dois Ultra Freddie Mercuries.


Rushing Beat Shura não possui consistência alguma. Ele tenta ser mais adulto que o resto da série, isso enquanto nos permite dar pilões em robôs aranha. Também não existe consistência nenhuma entre as fases, que vão de um laboratório onde pesquisas biológicas secretas são conduzidas, a um navio pirata e uma mansão samurai. É como se doze designers diferentes tivessem produzido cenários para diversos jogos que foram cancelados, e que decidiram reaproveitar suas ideias em um único game, não importando quão pouco sentido isso fizesse.

Aliás, Jimmy é uma maldita cópia do Undertaker da WWE, mais precisamente, do visual e maneirismos do personagem durante a década de 1990. Só queria dizer isso.


Rushing Beat Shura é um beat’em up competente, com um bom valor de replay, providenciado pelo seu elenco de personagens variados e pelos diversos caminhos diferentes que podemos escolher para chegar ao fim do jogo.

Mas não foi isso que tornou este um dos games mais memoráveis de sua geração, e sim a péssima localização que recebeu ao desembarcar nos Estados Unidos.

Agora, Rushing Beat Shura não era uma obra Shakespereana, mas a versão americana conseguia ser simplesmente imbecil. Pra começar, decidiram utilizar fotos digitalizadas como os retratos dos personagens, ao invés das ilustrações de sua versão original. Eu sei lá que raios de filtro usaram nessas fotos, mas o resultado final é enervante. Você ainda reconhece os indivíduos nelas representados como humanos, mas é impossível afastar a sensação de que eles foram vítimas de uma maldição cigana que eventualmente os transformou em brinquedos de camelô.


Além disso, penso nos pobres atores que participaram deste game. Nos anos 1990, games em CD-Rom traziam horas de diálogos gravados e cenas em animação ou FMV que faziam necessária a presença de profissionais do teatro que fossem capazes de dar alguma dignidade a histórias que eram menos plausíveis que a cena da “MALDITA ALEIJADA” de Maria do bairro.

Diabos, até Christopher Lloyd embarcou nesse filão.

Imagine a decepção dos atores contratados pela Jaleco, ao descobrirem que seu trabalho se resumiria a mandar uma foto 3x4 para a Jaleco e vê-la estampada para todo sempre no jogo.

Não apenas isso, alguém dentro da Jaleco americana decidiu que trilha sonora era coisa de pederasta e apagou quase todas as músicas do game, as substituindo por barulho ambiente. Claro, poderia funcionar em um console que usasse mídia ótica, mas no Super Nintendo, a maioria dos sons ambientes acabavam soando como um cara fazendo “SHHHHH” para o casal de namorados que não para de se agarrar e fazer sons obscenos na fileira atrás dele no cinema.

Não satisfeita, a equipe de localização decidiu modificar o visual dos super especiais. No jogo, cada personagem tem um ataque capaz de matar tudo na tela, ou causar dano absurdo nos chefes. A versão japonesa dá aos nossos heróis a capacidade de evocar bestas lendárias em animações que fariam inveja ao Shurato, enquanto nos EUA, nossos heróis ganham poderes mutantes que fariam Charles Xavier sentir tanta vergonha quanto o meme do Picard.

Lembra que Echo podia chamar uma família inteira de Fênixes, e eu continuo usando este termo sem saber se ele é o plural correto?


Pois na versão americana ela grita até matar tudo ao redor.


De certa forma, posso entender a lógica do responsável pela localização. É meio absurdo ver um militar de carreira do exército estadunidense como Al, usar o poder da cólera do tigrão para destruir seus oponentes. Faz muito mais sentido ele rodopiar até criar um furacão de plasma.

E por que este game bom, mas não acima da média, me marcou tanto? Ora, é porque sempre que eu o jogava, sentia um misto de raiva e prazer.

Vejam, crianças... Eu era um Otaku desvairado na juventude.

Sim, eu sei. Um choque descobrir que este exemplo de homem com um pênis de 22cm um dia corria por aí imitando o Hiei (no meu tempo não tínhamos Naruto pra emular). Mas é a verdade. Eu era obcecado por Animes e Mangás, trocava fitas com todos os seres imundos e radioativos que encontrava nos subterrâneos da comunidade nerd paulistana, gravava todas as animações nipônicas que nossas emissoras se dignavam a exibir, e estava prestes a descobrir algo que mudaria minha vida para sempre: O Japão produzia desenhos pornôs.

Aqui vai imagem de um deles, para fins meramente ilustrativos:


Como obcecado pela cultura nipônica, eu tinha ódio de qualquer tipo de tradução ou localização que não fosse 110% fiel a versão original de um produto japonês. Eu odiava Power Rangers com todas as forças, me recusava a escutar o tema de Digimon cantado pela Angélica, e a mera visão de todas as alterações que a versão americana de The Peace Keepers trazia, era o suficiente para fazer meus pulmões e intestinos trocarem de posição, tamanho o desgosto.

E o caso é que EU NUNCA TINHA JOGADO A VERSÃO JAPONESA DE RUSHING BEAT SHURA!!!

As mudanças feitas no jogo eram tão esdrúxulas e excessivas, que mesmo alguém sem conhecimento do jogo original podia perceber que algo estava muito errado.

Normalmente eu teria um ataque de pelanca, arrancaria o cartucho do meu Super Nintendo, o arremessaria no canto do quarto, o atingiria com uma catarrada e vociferaria palavras de ódio aos céus, amaldiçoando o limpo e a cultura americana violadora de Weeaboos.

Depois eu recolheria o cartucho e limparia a catarro com muito cuidado, pois o cartucho era uma locação e eu não queria ser responsabilizado por possíveis danos que minha mucosidade pudesse causar nele.

Mas eu nunca fiz isso com The Peace Keepers. Por mais enfurecedora que fosse sua localização, eu ainda gostava do jogo, e eu encarava a canibalizada versão gringa como um estepe, que serviria até eu colocar minhas patas engorduradas no cartucho japonês.

Eventualmente eu fiz isso... Mas não era a mesma coisa.


Por mais absurdo que fosse The Peace Keepers, o jogo acabou me marcando. O conheci em um período de grande transição em minha vida, eu estava encerrando o ensino médio e me preparando para o vestibular, fitas VHS estavam deixando de ser o formato de vídeo padrão e dando lugar aos DVD’s, e a internet estava começando a pipocar, dando indícios de que a comunicação como a conhecíamos nunca mais seria a mesma.

Em meio a este turbilhão de mudanças, The Peace Keepers era um lugar seguro. O beat’em up bom, mas não excelente, que poderia me fazer companhia todos os fins de semana, enquanto a locadora onde eu o pegava não falisse. Enquanto o mundo ao redor girava cada vez mais rápido e fazia cada vez menos sentido, eu ainda tinha o conforto de um game simples mas divertido me fazendo companhia aos finais de semana.

Pouco tempo depois de explorar cada aresta de The Peace Keepers, ganhei um Sega Saturn e aposentei meu Super Nintendo. Não me desfiz do console, mas ele nunca mais ocupou a posição de honra que um dia fora sua.

Talvez este tenha sido o motivo que permitiu a este jogo me marcar tanto. Foi minha grande despedida do 16 bits da Nintendo.

Antes de encerrar, preciso chamar a atenção para os finais de The Peace Keepers. O jogo tinha diversos finais, que dependiam de qual personagens eram usados no confronto com o chefe final.

No final de Jimmy (ou Prokop), ele criava sua própria produtora de games, e como podemos ver pelo seu texto de encerramento...


... Os responsáveis pela localização de The Peace Keepers não estavam muito felizes com suas condições de trabalho.

E de repente, a versão americana do game faz muito mais sentido.

Cheers!!!

15 comentários:

Amazing Leo disse...

Eu gosto de fígado.

Ah, e ótimo texto.

Éder disse...

Ótimo texto Amer . Esse é mais um game que conheci por sua causa . Só joguei a versão japonesa . E aproveitando que você mencionou a capa tosca americana queria saber se existe a possibilidade de uma terceira parte das piores capas dos ganes

Éder disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Éder disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
4NDR3C0L1N disse...

Nunca pare com esses artigos sobre games obscuros.

Leandro"ODST Belmont" Alves the devil summoner disse...

Já joguei esse Rushing Beat 3 (prefiro numerar os games de briga de rua do que dar subtítulos a eles) e tirando a arte dos personagens da versao americana (na versão japonesa ao menos é em arte de anime) e o todo o resto, ele não era tão ruim assim. Mas eu não o alugaria novamente após termina-lo. Zerei com a Echoes uma vez para nunca mais.

E ainda prefiro o segundo game da série, na versão nipônica. Gostava de jogar o Lord J e dar uma de Grappler nos mamelucos.

Faça mais artigos Amblim, Please.

Bier disse...

Nossa, cara! Você falou muito sobre esse jogo! Muito do que eu queria ter dito também. Eu sempre quis saber detalhes do enredo nipônico do jogo, quando descobri que havia uma versão "universal" (EUA), baixei-o mais que depressa e rodei no emulador... e senti um vasto sabor de decepção que nunca mais saiu da minha boca.

Muito bom, Amer! Como sempre!
(Nota: eu quis dizer que "O artigo foi bom, como sempre foram bons os artigos do Amer." Em nenhum momento eu quis dizer que "Como sempre o Amer."
Obrigado!

Scant disse...

olá

solicito parceria

já adicionei seu link

se puder adicionar o meu, agradeço
https://obscult.blogspot.com/

vida longa e próspera!

Nappa_ disse...

kkkkk, esse final do jimmy/prokop. Só a crítica à empresa disfarçada em forma de zerada.

Apenas uma Estudante disse...

Conheci seu blog recentemente, estou viciada em ler agradeço, morro de rir - realmente parabéns e sucesso 🧡

Ricky-Oh disse...

Muitos anos atrás eu ganhei um CD com um emulador do SNES que tinha 245977549862 jogos, e Rushing Beat ficava LÁÁÁÁÁ no fim da lista... Joguei umas 3 vezes, só.
Admito que essa mesma sensação que você descreve, quem me causou foi Fatal Fury... Não era Beat'em Up, mas me marcou no gênero Luta para sempre.
Ótimo texto, Amer. Feliz pelo Blog estar ativo ^^

Laura Oliveira disse...

Faz análise de The Wolf Among Us e Detroit Become City?

Unknown disse...

Ótimo texto, faça um artigo sobre Invasor Zim e Warhammer 40k ;-;

yngonus disse...

jogão,joguei mt nos tempos das locadoras!

Unknown disse...

Artigo tosco.