Não, não o Schwarzenegger....
Tampouco o Arnold daquele seriado velho e abominável que passa no SBT na hora do almoço.
Me refiro ao Arnold da Nickelodeon, da época que o canal exibia bons desenhos animados ao invés de séries adolescentes imbecis. Ah sim, aqueles eram os bons e velhos dias!
Para quem não conhece, Hey! Arnold conta as aventuras de... bem... Arnold. Um garoto eternamente bem intencionado, que sempre tentava ajudar aos outros e tinha um senso de lealdade inabalável.
Ele também tinha a cabeça no formato de uma bigorna, o que ajudava a encontrá-lo em uma multidão.
Hey! Arnold é uma série que evoluiu bastante com o tempo. O foco da história gradualmente deixou de ser Arnold para se tornar Helga, a colega de classe Bully do menino, que abusava fisica e psicologicamente dele, mas que secretamente era apaixonada por sua pessoa.
Menina mau humorada que é apaixonada pelo protagonista? Até aí sem novidades, certo?
Bem, o caso é que Helga vinha de uma família extremamente disfuncional, com um pai egocentrico e desinteressado, uma mãe alcoólatra e sexualmente insatisfeita (o desenho disfarçava, mas os problemas da mulher eram óbvios) e uma irmã mais velha perfeita, que era o foco da atenção dos pais. A paixão de Helga pelo garoto é a mera canalização de seu desejo de aceitação para um recipiente mais adequado em aceitá-lo.
De fato, Hey! Arnold era um desenho extremamente sensível, que tratava com delicadeza incomum de temas um bocado pesados para séries infantis. O episódio de Natal é um ótimo exemplo disso.
E vamos nós!
As crianças horrorosas do bairro aproveitam a folga da escola para se divertir na neve! Que saco, cresci com esse tipo de cena em especiais de Natal e nunca tive neve pra brincar, droga de país quente dos Infernos! Pois quando tiver minha filha, mudar-me-ei para a Asgard!
E devo dizer, para um desenho animado tão inteligente e sensível, Hey! Arnold tinha uma quantidade absurda de crianças feias, pelo amor de Benji!
Helga dá uma volta com Phoebe, sua melhor amiga e provavelmente uma das poucas Japonesinhas não estereotipadas presentes em um Cartoon.
Phoebe declara o quanto ama o Natal, época de caridade e amizade, e pergunta a Helga o que é melhor na vida.
Helga prontamente responde que são OS PRESENTES! GANHAR AQUILO QUE SE DESEJA! DESTRUIR SEUS INIMIGOS! OUVIR O CHORO DE SUAS MULHERES!!!
Phoebe então decide nunca mais dar rum para Helga quando assistirem Conan o Bárbaro.
Helga então tem um faniquito e vê aquilo que mais quer ganhar no Natal: botas de neve de Nancy Spumoni.
Quem xavascas é Nancy Spumoni?
Boa pergunta! Tudo que sei é que sempre que ouço este nome, sinto vontade de tomar um Capuccino.
Enquanto isso, Arnold e seu camarada Gerald fazem compras de Natal.
Gerald conta que comprou gravatas pro seu pai, irmão mais velho e irmãzinha. Arnold explica que uma gravata não é um bom presente para uma menina de 4 anos, pois ela pode se enforcar acidentalmente, mas Gerald não fala nada, apenas sorri com satisfação sombria.
Os dois passam por Helga, que começa a vociferar pragas para Arnold, esse moleque imundo com cabeça em forma de um tumor, desgraçado, lanfranhudo, eunuco...
... e lindo, adorável e sensível! OH!
...
Mulheres são incompreensíveis desde uma tenra idade. Eu juro.
Na pensão onde mora com os avós, Arnold resolve brincar de amigo secreto com os demais inquilinos e tira justamente...
... o senhor Hyunn, que parece ficar especialmente deprimido nesta época do ano.
Arnold não sabe o que picas comprar de presente para seu vizinho. Gerald recomenda uma boneca inflável, mas Arnold só quer recorrer a isso em último caso.
Gerald então sugere que Arnold converse com o senhor Hyunn e tente descobrir o que ele gostaria de ganhar de presente. Arnold acha a idéia ótima, agradece e avisa o amigo que ele está com uma camisinha enfiada na cabeça há dois dias.
Arnold troca uma idéia com Hyunn, que já tem tudo que um homem pode precisar: suéteres.
Sério, ele tem um armário cheio de suéteres e está bem feliz com isso.
Mas conversa vai, conversa vem e ele começa a se abrir.
Há muito tempo atrás, ele morava em um país do leste Asiático e tinha uma filhinha.
Ele costumava sonhar com o tipo de futuro que a menina teria. iria para a escola, teria uma boa formação, seria uma pessoa de bem? Essas coisas que todo pai se pergunta quando seus filhos nascem.
Infelizmente pata Hyunn, ele não teria muito mais tempo para pensar nisso.
Uma guerra estourou no norte de seu país e sua nação foi praticamente destruida pelo conflito.
Desesperado, Hyunn foi até a embaixada Americana, pois ouviu que os soldados Americanos estavam resgatando civis e os levando para fora da zona de conflito.
Infelizmente, quando lá chegou, o helicóptero estava para partir e não havia espaço para mais ninguém no veículo. Hyunn teve então de tomar a decisão que todo pai teme.
... e enquanto o helicóptero decolava, o soldado gritou para ele o nome de uma cidade. Era lá que Hyunn deveria procurar por sua menina quando saísse do país.
Hyunn só conseguiu ir para os Estados Unidos duas décadas depois e mudou-se para a cidade que o soldado havia dito. Mesmo assim, ele nunca encontrou nenhuma pista de onde sua filha pudesse estar.
...
Ok, preciso comentar sobre isso.
Temos aqui uma série direcionada a crianças, que acabou de mostrar uma história de separação, causada pela guerra. Não qualquer guerra, mas uma que ocorreu de verdade, o tipo de coisa que desenhos animados costumam evitar.
Não só referenciaram a Guerra do Vietnã, como a uma parte muito específica dela, a Operação Vento Constante. É muito mais atenção a detalhes do que se espera de uma animação.
Sério, me mostre UM desenho animado além deste, que tenha tido colhões de fazer referência à Guerra do Vietnã.
Pois é.
Arnold decide fazer um esforço para encontrar a filha do senhor Hyunn. Gerald avisa o amigo que encontrar uma pessoa UM DIA antes do Natal é impossível e que ele deve ter porra no lugar do cérebro se acha que vai conseguir.
Mesmo assim, Gerald permanece leal como um Sancho Pança e acompanha seu amigo até o amargo final.
Enquanto isso, Helga procura o presente perfeito para Arnold e destrói todos os inadequados com a fúria de Bruce Banner.
Muito justo.
Arnold e Gerald chegam em uma repartição pública. Nosso querido cabeça de bigorna acha que encntrará algum burocrata disposto a ajudá-lo em sua jornada...
As pessoas tão mais interessadas em se alcoolizarem e acordarem com uma doença venérea na manhã seguinte. A maneira urbana de honrar o aniversário de Jesus.
Mas eis que um burocrata ainda trabalha... OH!!! Haveria esperança de salvar o Natal do senhor Hyunn?
NÃO!!! Ele está ocupadíssimo e não tem tempo a perder com dois moleques imbecis com cabeças deformadas!!!
Diga-se de passagem, o sujeito deve ser um puta incompetente pra ter trabalho acumulado suficiente para mantê-lo preso no escritório no dia 24 de Dezembro.
Eis que sua esposa o telefona e lhe cobra que faça as compras de Natal.
...
MAS QUAL É A PORRA DO PROBLEMA DOS PERSONAGENS DE DESENHOS ANIMADOS??? Primeiro foi a Jubileu e agora esse projeto de Danny DeVito! Por que nenhum ser de acetato faz as compras de Natal com antecedência?
Arnold então se oferece para fazer as compras para o velho, contanto que ele o ajude a encontrar a filha do senhor Hyunn em seguida.
Desesperado o suficiente para confiar em dois moleques de nove anos, o sujeito aceita.
E Arnold parte em uma nova jornada.
O menino visita todas as lojas que encontra e atravessa a cidade pelo menos sete vezes em busca de todos os itens da lista.
Que bom que ele aceitou esta missão, pois dada a péssima forma física do burocrata, ele provavelmente agraciaria sua família com um derrame. Reconhecer o cadáver inchado de seu pai no IML não me parece a melhor maneira de se passar o Natal.
Arnold risca os itens da lista, que também será muito importante para a trama e vocês farão bem em se lembrarem dela.
Enquanto isso, Helga encontra um presente perfeito para Arnold: um video game de ação, cheio de violência, explosões e mulheres robôs semi nuas.
...
Quando uma mulher dá um video game de presente para um homem, é prova de amor inegável. Moça pra casar, é o que eu digo.
Eis que ela se encontra com Arnold e Gerald, e o rapaz com a camisinha na cabeça diz que este presente não é adequado, pois não é realmente pessoal e dedicado à pessoa que o receberá.
...
DO QUE VOCÊ TÁ FALANDO SEU MERDA??? UM VIDEO GAME É SEMPRE UM PRESENTE ADEQUADO!!! OS RESTOS DE SÊMEN NESSA CAMISINHA TÃO AFETANDO SEU CEREBELO, SEU FILHO DE UMA PROSTITUTA???
Bom, Arnold e Gerald se vão e deixam uma Helga claramente decepcionada para trás. Na saída, os meninos deixam cair a lista de compras do burocrata. Helga a apanha e...
Os meninos então partem em busca do último item da lista: botas de Neve de Nancy Spumoni.
...
Sério, preciso de um capuccino depois deste artigo.
Enfim, as botas aparentemente esgotaram em todo o planeta e os vendedores riem deles.
Fato que se repete em toda loja que vão.
Caralho, esses vendedores foram estuprados por maníacos vestidos de Papai Noel quando eram crianças? Quem é animalesco ao ponto de caçoar de dois meninos de nove anos em plena época de Natal?
Mas quer saber? Riam o quanto quiserem, o garoto feio com cabeça de bigorna tem um desenho com o nome dele... E VOCÊS VENDEM SAPATOS!!!
...
Cretinos...
O tempo se esgota e os meninos voltam ao burocrata, que mostrando um Espírito Natalino incomparável, se nega terminantemente a ajudá-lo.
Ora pois, els não compraram as botas de Nanci Spumoni! 99% de sucesso é inaceitável, INACEITÁVEL!!!
Arnold perde toda a esperança na vida, decide voltar para casa e se matar. Gerald apoia o amigo e diz que enterrará seus restos no campinho, para que assombre as demais crianças do bairro pelo resto da eternidade.
E Helga, mais escondida que Solid Snake, escuta toda a conversa...
... e se pergunta como poderia ajudar seu amado cabeça de tumor.
Enquanto isso, na casa de Helga, sua família enche a cara e canta canções imbecis de Natal.
A menina chega em casa claramente deprimida e sua mãe deixa que ela abra um presente de Natal mais cedo, para se animar.
Provavelmente, um dos dois momentos em toda a série em que ela prestou atenção na filha.
E o presente é nada menos que... BOTAS DE NEVE DE NANCY SPUMONI!!!
Como não existem pedófilos ou assaltantes no mundo de Hey! Arnold, Helga sai no meio da noite para experimentar seus novos instrumentos pisantes, quando de repente...
... deixa cair a lista de compras de Arnold.
E tal qual o Grinch antes dela, Helga se viu diante de um conflito moral de Natal.
Que mau!
A menina faz sua escolha, corre até a repartição pública, localiza o burocrata que esnobou Arnold e diz "Aqui estão suas botas seu porco filho da puta e egoísta! Agora me ajude a encontrar aquela Vietnamita imunda antes que eu fale ainda mais coisas racistas nesta data tão sagrada!"
O burocrata agradece, mas diz que já é muito tarde, ele precisa voltar pra casa, encher a cara de vinho e dar aquela azeitada na patroa.
Helga pede a ele, por tudo que há de mais sagrado, pra ajudá-la se tiver algum coração. Senão, um menino muito especial vai perder toda sua fé em milagres.
E desta vez, é o burocrata que se vê em um dilema...
Na pensão dos avós de Arnold, já é Natal e todos trocam presentes.
Gerald vem recolher o cadáver de Arnold como havia prometido, mas encontra o amigo bem vivo. Aparentemente, o avô tranca muito bem seu armário de armas.
Mais que derrota, heim Arnold? Tudo bem, tem mais gente que sabe como é ser fracassado Natalino.
Mas eis que a campainha da pensão toca. Quem diabos poderia ser em pleno Natal?
Eis que Arnold, o senhor otimismo em pessoa, dá uma de cínico pela primeira vez em toda série. Ele comenta com Gerald que isso é extremamente conveniente e não faz o menor sentido.
Gerald, agora com a circulação de sangue em sua cabeça fluindo, manda o amigo calar a boca e aproveitar o Natal. Quem sabe ele não tem um anjo da guarda olhando por ele e que resolveu essa parada?
Sim, de fato.
Um anjo loirinho e com uma sobrancelha só.
Nota do Amer: Não estou chorando... caiu ácido no meus olhos... isso...
E este é um dos meus especiais de Natal favoritos. É o tipo de bobagem otimista que sempre me faz sorrir nesta época do ano.
Também acho um desenho que passa bons valores pra garotada. A determinação de Arnold e o sacrifício de Helga em uma época marcada pelo consumismo desenfreado são boas lições para serem dadas a uma criança, que pode crescer um pouquinho menos egoísta graças a isso.
Desenhos animados nos marcam das mais variadas formas, acredite em mim.
E encerro este ano por aqui. Agradeço a todos que sempre acompanham o blog, lêem meus artigos e comentam meu trabalho. 2010 foi um ano especialmente difícil pra mim e ter um público sempre me dando força foi uma das coisas que mais me ajudou a seguir em frente.
Desta forma, um feliz Natal, Chanucá, ou seja lá o que vocês comemorem. Aproveitem bem as festas e que Deus abençoe a todos vocês.
Os vejo em 2011.
Smurfbot-Dog!
Cheers!!!






